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  Título
De Kiarostami para a educação: experimentar o cinema na escola
Autor
Mirna Juliana Santos Fonseca
Resumo Expandido
A partir da entrevista de Kiarostami a Bergala sobre o filme “Onde fica a casa do meu amigo?” busco lançar um olhar sobre a experiência do cinema na escola. O trabalho com uma equipe de 3 pessoas para lidar com 30 crianças – em que cada uma delas têm “sua própria visão das coisas” – poderia ser o ponto de comparação entre fazer cinema e estar em sala de aula, mas Kiarostami direciona nosso olhar além disso. Para ele, as crianças filmadas devem ser livres, sendo necessário apenas uma “tacada” para que se transformem em “seres do cinema”. O tipo de cinema do qual ele faz parte considera que erros de continuidade ou mudanças repentinas na luminosidade são problemas menores se comparados à espontaneidade das crianças nas cenas. Os objetos reais e alguns artifícios “artesanais” dão o tom a esse fazer cinematográfico, como o uso de um lençol branco como difusor da iluminação natural nas cenas da escola. Trata-se, assim, de um cinema de poucas opções, como ocorre também na escola ao realizar filmes com as crianças. Filmar num espaço reduzido como uma sala de aula não se constitui um problema para o tipo de cinema de Kiarostami, sendo a escola filmada, o professor, as crianças e o avô do menino pessoas e lugares daquela localidade. Como afirma Ishaghpour: “para Kiarostami, parece que todo mundo só tem um desejo: ser fotografado, ver-se num filme, aparecer na tela. [...] Ter a própria imagem talvez permita escapar ao fluxo ininterrupto, ao magma anônimo do qual fazemos parte, ser escolhido, distinguido, diferente da massa dos sem-nomes desta terra.” Para Cakoff: “O universo particular de seus personagens sem nenhum conhecimento de cinema e seus sinceros atores amadores voltaram a dar o alento para um cinema que carecia de ‘real’ realismo. ‘Julgo que a matéria-prima de um diretor não é a câmera, o negativo de uma película, mas a matéria humana’, revela o cineasta dos prazeres da inocência.” Para alimentar de dúvida o espírito do espectador, Kiarostami mostra sem mostrar. Quando o menino chega em casa depois de um dia sem dar notícias, há uma expectativa para saber que punição ele terá, porém não há essa cena: “São nesses momentos que os espectadores se separam/discordam, se contradizem, colocam ideias controversas.” Ele não explica demais, fazendo com que o espectador tenha suas próprias interpretações para os filmes: “E cada vez em que todos os espectadores entendem alguma coisa, eu acho que de minha parte eu expliquei demais. [...] O que mais me interessa é quando há dois espectadores que vão assistir a um filme e um deles sempre observa algo e quando reconhece algo e murmura no ouvido do outro algo que viu. Essa relação instaurada entre esses dois espectadores é para mim importante porque isso cria uma relação do tipo triangular que se dá entre os dois espectadores e o personagem do filme, criando uma ligação entre esses três, o que para mim é muito importante.” As propostas reais do cinema premiado de Kiarostami podem servir de inspiração para a produção de filmes na escola. Com poucos recursos, usando a criatividade e o que se tem dentro da escola ou na própria comunidade local, é possível criar. Para ajudar o professor nessa tarefa, em relação ao que os alunos devem fazer, Kiarostami revela: “É preciso segui-los e não guiá-los o tempo todo.” – como se baseia a proposta de cinema na escola, embasada em Bergala. Como explica Migliorin: “Ensinar com cinema passa, justamente, por um ‘não saber’ das partes que se preparam para o acontecimento, ou seja, para a invenção intempestiva consigo e com o outro, com as imagens, mundos e conexões que o cinema nos permite, nos autoriza.” Para tanto, é preciso que o professor também se permita arriscar-se nessa experiência, junto com seus alunos, deixando-se levar, tendo na matéria humana sua matéria-prima: buscando nunca explicar demais aquilo que escolheu mostrar no cinema produzido na escola.
Bibliografia

BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Tradução Mônica Costa Netto, Silvia Pimenta. Rio de Janeiro: Booklink, 2008.

CAKOFF, Leon. Abbas Kiarostami e a arte de contar até dez. In: KIAROSTAMI, Abbas. Abbas Kiarostami. Tradução Alvaro Machado, Eduardo Brandão, Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2008. p. 79-80.

ISHAGHPOUR, Youssef. O real, cara e coroa. In: KIAROSTAMI, Abbas. Abbas Kiarostami. Tradução Alvaro Machado, Eduardo Brandão, Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2008. (Coleção Mostra Internacional de Cinema). p. 100.

L’EDEN CINEMA. Où est la maison de mon ami? Conception: Alain Bergala. Paris, 2001-2002. 2 DVDs.

MIGLIORIN, Cezar. Cinema e escola, sob o risco da democracia. In: FRESQUET, Adriana (Org.). Dossiê cinema e educação #1: uma relação sobre a hipótese de alteridade de Alain Bergala. Rio de Janeiro: UFRJ, 2011. p. 133.