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  Título
Encenação de gestos – estética na propaganda da Ditadura Militar
Autor
Guilherme Bento de Faria Lima
Resumo Expandido
A temática dos regimes ditatoriais que se estabeleceram na América Latina é utilizada em diferentes produções cinematográficas. Não é incomum encontrar documentários que buscam resgatar rastros e vestígios do passado na tentativa de compreender de maneira mais aprofundada os processos de formação de países latino-americanos e lançar luz sob fatos ainda obscuros.

Este artigo é parte da pesquisa de Doutorado em curso que visa investigar e problematizar a utilização das imagens de arquivo em uma perspectiva publicitária, nos limites desta apresentação, a proposta é estabelecer um recorte e analisar algumas propagandas televisivas brasileiras. É um dos desdobramentos de uma investigação realizada no acervo audiovisual da Agência Nacional disponível no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.

A busca de material audiovisual nos acervos possibilitou o encontro e a visualização de algumas propagandas políticas, todas elas com elevado padrão de acabamento. “E-fez a ordem” apresenta imagens de manifestações populares em diálogo com recortes de jornais remetendo a uma estética das vanguardas cinematográficas. “Merende escolar” trabalha essencialmente com a paragem das imagens colocando grande ênfase nas expressões das crianças em diálogo com uma trilha musical que se assemelha a uma pequena caixa de música e confere, assim, uma dimensão lúdica às imagens das crianças se alimentando. “Campanha de trânsito” apresenta um único plano em slow motion de um homem sendo atropelado em diálogo com um narrador em off com um texto em tom jornalístico. “Marcas do que se foi...” coloca o conceito de família em evidência, trabalha alicerçado em arquétipos e faz uso da imagem de arquivo para fabular um passado que precisa ser mantido e preservado.

Neste sentido, foi possível observar procedimentos estéticos fabricados, através da lógica publicitária – direção de atores naturalizada, fabricação de estereótipos culturais, tratamento de cor e iluminação para produzir verossimilhança, trilha sonora como ênfase dramática da estrutura narrativa e ritmo de edição que conduz ao desfecho ideológico são alguns exemplos – que colocam os pequenos gestos em evidência. Procedimentos que pretendem simular a espontaneidade como o cotidiano de uma escola pública ou o simples ato de atravessar a rua e naturalizar a artificialidade como a presença de um fotógrafo dentro de casa ou a simulada aleatoriedade e escolha de manchetes de jornais. A construção de álbuns de família como uma premissa de fabulação da gênese dos personagens publicitários e uma tradição sem raízes que precisava ser propagada e estimulada. Comportamentos que deveriam ser adotados e seguidos sem nenhum questionamento ou reflexão crítica diante do contexto político do período.

As relações e interseções entre a linguagem cinematográfica e a linguagem publicitária em busca da construção de um discurso imagético que almeja atenuar ou mesmo dissimular um posicionamento político ditatorial, excludente e conservador. A análise proposta pretende se debruçar sobre um possível sentido obtuso presente nas imagens publicitárias e, assim, evidenciar as contradições entre o discurso da propaganda e os aspectos socioculturais da conjuntura histórica brasileira.

A pesquisa tem como fundamentação teórica uma articulação e diálogo bibliográfico estre os autores Roland Barthes, Giorgio Agamben, Serge Daney e Jacques Derrida. Desta forma, o artigo visa avaliar a experiência das propagandas políticas feitas para TV durante o Regime Militar brasileiro como uma forma de avaliar imagens e narrativas essencialmente marcadas pelo otimismo e pela fabulação desenvolvimentista. E, além disso, estabelecer correlações e paralelos com procedimentos estéticos observados em outras peças audiovisuais do mesmo período, como por exemplo Retrato de classe e Wilsinho Galileia, ambos documentários do Globo Repórter veiculados na década de 70, que fizeram uso da paragem de imagens, de fotografias do passado e recortes de jornais.
Bibliografia

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