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  Título
Tudo nos trilhos: a experiência do cine-trem na União Soviética
Autor
Rafael Fermino Beverari
Resumo Expandido
Os sinuosos trilhos da União Soviética receberam um novo artefato em janeiro de 1932 quando Aleksandr Medvedkin, incumbido pelo Comissariado do Povo para os Transportes a fim de organizar produções e projeções fílmicas, partiu para os lados da Ucrânia e Criméia visando a melhoria do sistema ferroviário soviético. O cine-trem, como era conhecido esse tipo de agitação e propaganda, contava com três vagões, sendo o primeiro como dormitório, o segundo uma sala de projeção e animação e o terceiro um laboratório para revelar e copiar as películas. No total, 32 pessoas embarcaram nesta viagem que resultou em 18 números de um cinejornal e 53 filmes de propaganda.

Desenvolvido durante o primeiro Plano Quinquenal, a tripulação se lançou diante de um contexto marcado pela planificação da economia soviética, impulsionada por Stalin, com destaque às indústrias de carvão, ferro, energia e transporte. Deste modo, os domínios significativos presentes nos recortes gestados nestes filmes aproximaram um campo de análise cujo desvendar das mudanças sociais de determinado país podem ser notados no microuniverso fílmico. Sem deixar de lado a relação entre o produto (curta-metragem) com o sistema no qual se produz, as imagens presentes na produção analisada apontam para variados aspectos de uma sociedade em profundo processo de reorganização social do trabalho.

Levando em consideração que o filme representa o fragmento de determinada sociedade permeada por uma ideologia pautada pelas relações sociais de produção, Pierre Sorlin traz uma problemática envolvendo como a produção de mensagens é construída no interior dos filmes. Assim, o exercício relacional entre as imagens e os objetos que as representam é o mote da análise que percorre a produção do curta-metragem "Cuide de sua saúde!", realizado no ano de 1932 durante as viagens do cine-trem.

Assim, a problemática da saúde pública é um dos destaques analisados nessa obra, cuja produção busca sensibilizar a população acerca dos malefícios que a má higiene pode causar na vida das pessoas, em especial ao conjunto dos trabalhadores que deveriam se conscientizar dos malefícios que as sujeiras trazem em suas vidas. Um artifício interessante utilizado nesse filme é a comicidade presente através das cenas em que um gato é subitamente substituído por um ser humano em sua tentativa de fugir da água que cai de um encanamento. O riso, provocado por tais imagens, brandura a austeridade, instigando, segundo Henri Bergson, uma "anestesia momentânea do coração". Simultaneamente com a moralidade e a severidade presente no discurso, uma grande quantidade de água cai em cima de um sujeito que titubeava em tomar banho. Por entre os parasitas retratados em um plano fechado, o gato surge novamente como um objeto relutante à água. Logo, a imagem de um túmulo indica o caminho para quem não segue as orientações exibidas.

Todavia, o front de batalha também é representado no campo da percepção. Assim como Paul Virilio destaca o desenvolvimento da tecnologia, principalmente durante os conflitos bélicos, associada ao incremento de novos equipamentos audiovisuais, Medvedkin relata em seu livro - "El cine como propaganda política - 294 días sobre ruedas" - a experiência do cinematógrafo como uma "acción de estilete" que deveria "abrir fuego" e "atacar" os "elementos nocivos" que prejudicariam os caminhos trilhados pela União Soviética.

Construir o riso em um momento marcado pelos conflitos enfrentados por aquela nação durante o processo de planificação econômica. Pois é dessa maneira que a experiência do cine-trem, coordenado por Aleksandr Medvedkin, traz interessantes aspectos cinematográficos de uma realidade transformada por esse grupo que se aventurou durante 294 dias em território soviético.
Bibliografia

BERGSON, H. O riso: ensaio sobre a significação da comicidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

____________. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

FAYE, Jean-Pierre. Introdução às linguagens totalitárias - Teoria e transformação do relato.

São Paulo: Perspectiva, 2009.

____________. A razão narrativa. São Paulo: Editora 34, 1996.

FERRO, Marc. Cinema e História. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

KRACAUER, Siegfried. O ornamento da massa. São Paulo: Cosac & Naif, 2009.

SORLIN, Pierre. Sociología del Cine. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1992.

VIRILIO, Paul. Guerra e Cinema. São Paulo: Boitempo, 2005.