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  Título
Philippe Garrel: entre duas desconstruções no pós-Maio de 68
Autor
Leonardo Esteves
Resumo Expandido
Durante o Maio de 68, Philippe Garrel, Serge Bard e Patrick Deval, trio que irá figurar em seguida entre os integrantes do grupo Zanzibar, realizam um curta-metragem, Actua 1, que é custeado por Godard. Ainda em Maio, Garrel parte para Alemanha, onde irá filmar Le revelateur, patrocinado pela mecenas Sylvina Boissonnas. Semanas mais tarde, dirige La concentration, posteriormente tirado de circulação pelo próprio cineasta. Entre estas obras se vê um deslocamento: entre a militância explícita, que tateia o espírito entoado pelas multidões nas barricadas entre maio e junho, evocando palavras de ordem e discursos engajados; e o arrefecimento político, o isolamento em uma expressão pessoal, introspectiva.



Estes longas-metragens experimentais, rodados por Garrel em poucos meses, ganham destaque na Cahiers du cinéma, que publica uma longa entrevista com o diretor. No encontro, fica registrado o prazer do cineasta com o momento da filmagem e, por outro lado, a falta de ânimo com o processo de finalização da obra. É mais ou menos neste período que um dos editores do periódico, Jean-Louis Comolli, engrena uma longa defesa sobre o "cinema direto" que visa expandir a questão da produção síncrona, documental, para outras arestas, enfatizando o momento do registro das imagens. Neste projeto, redigido já sob a influência da estética marxista pós-Maio, percebe-se uma tentativa de modernização da revista, no qual Garrel, enquanto um jovem autor, poderá ser visto como um dos alicerces.



Por outro lado, em janeiro de 1969 emerge a revista Cinéthique, conduzida por críticos que vislumbram uma autocrítica da crítica, denunciando um papel ideológico prestado pelas publicações convencionais (entre elas, claro, a Cahiers). O modelo de cinema marxista-leninista defendido por Cinéthique coloca o acento sobre a montagem, adaptando com certa ênfase ao cinema os textos de Louis Althusser (sobretudo "Sobre a dialética materialista" e "Ideologia e aparelhos ideológicos do estado"). Nesta revisão, a obra de Philippe Garrel vai ser tida como burguesa, artística, um desvio estetizante que poderá ser alocado sem muita dificuldade sobre a rubrica "art et essai".



Esta comunicação propõe uma análise parcial da obra produzida por Philippe Garrel nos arredores do Maio de 68. Dividindo-a entre uma parcela militante, adequada à inscrição nos preceitos do que versa o filme materialista dialético - defendido em Cinéthique -, representada por Actua 1; e outra parcela artística, autoral, como se vê nas páginas da Cahiers du cinéma, representada por seus três longas-metragens posteriores, produzidos entre 1968-69.
Bibliografia

ALTHUSSER. Louis. A favor de Marx. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.



______. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. Lisboa: Editorial Presença, 1980.



COMOLLI, Jean-Louis; NARBONI, Jean; RIVETTE, Jacques. Cerclé sous vide. Cahiers du cinéma. Paris, Les Editions de l'Etoile, nº 204, setembro 1968.



COMOLLI, Jean-Louis. Le détour par le direct. Cahiers du cinéma. Paris, Les Editions de l'Etoile. nº 209, fev. 1969.



COMOLLI, Jean-Louis. Le détour par le direct 2. Cahiers du cinéma. Paris, Les Editions de l'Etoile, nº 211, abril 1969.



FARGIER, Jean-Paul. La parenthèse et le détour. Cinéthique. Paris, nº 5, setembro-outubro 1969.



LEBEL, Jean-Patrick. Cinema e ideologia. Lisboa: Edições Mandacaru, 1975.



LEBLANC, Gérard. Diréction. Cinéthique. Paris, nº 5, setembro-outubro 1969.