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  Título
As protagonistas de Jenji Kohan: entre o american dream e o crime
Autor
Bárbara Camirim Almeida Lopes
Resumo Expandido
O presente artigo visa contribuir para o entendimento da questão da autoria em ficções seriadas televisivas e para o conhecimento sobre construção de personagens, através de um estudo de caso. Propõe-se a análise das protagonistas construídas por Jenji Kohan nas duas obras nas quais atuou como showrunner, Weeds e Orange is the New Black.

Mittel (2015), em seu livro Complex TV: the poetics of contemporary storytelling, dedica-se, dentre outros objetivos, a entender a questão da autoria relacionada aos programas seriais televisivos. O autor afirma que a característica serial dos programas televisivos muda tanto a forma de produção quanto a atribuição de autoria, em comparação ao cinema. Na forma de produção típica da televisão, vários episódios podem estar sendo produzidos ao mesmo tempo, em estágios diferentes, o que pede por um produtor que supervisione o processo como um todo. É este produtor que tem a responsabilidade das decisões finais sobre o produto. Historicamente, este produtor acumulou também a função de roteirista-chefe e muitas vezes é também o criador da série. A este indivíduo (ou indivíduos) que ocupa este encontro de funções, atribuiu-se o título não-oficial de showrunner e é a ele que se atribui a autoria da obra. Esquenazi (2011), em seu As séries televisivas, identifica também o ofício do criador de séries que reúne a competência da escrita e da gestão e afirma que, cada vez mais, uma mesma personalidade segue o projeto da criação do universo ficcional à concretização audiovisual.

Lançando um olhar para a obra da roteirista e produtora Jenji Kohan é possível identificar algumas marcas autorais, dentre as quais interessa a este artigo a forma como são apresentadas suas protagonistas. Jenji Kohan, após ter trabalhado na sala de roteiristas de séries de sucesso como Um maluco no pedaço e Gilmore Girls, estreia como showrunner com Weeds, lançada em 2005 pela rede Showtime. Weeds conta a história de Nancy Botwin, uma típica mãe do subúrbio americano que se torna traficante de drogas após a morte do marido. A série durou oito temporadas e ficou no ar até 2012. Em 2013, Jenji lança pela Netflix a segunda série na qual exerce o ofício de showrunner: Orange is the New Black. O ponto de partida desta série é a chegada à prisão de Piper Chapman, uma mulher de cerca de trinta anos e de classe média alta, que é condenada por sua associação ao tráfico internacional de drogas no seu passado. A série conta com quatro temporadas e com a previsão de, no mínimo, mais três. Identifica-se, nos dois casos, uma dualidade nas personagens centrais das tramas. Se por um lado vivenciam uma vida típica de classe média alta americana, chamada aqui de american dream, por outro estão ou estiveram envolvidas com o mundo do crime.

Para entender a construção destas duas personagens, seguiremos alguns dos caminhos apontados por Eder, Jannidis e Scheneider (2010) na introdução do livro Characters in Fictional Worlds. Neste artigo, entende-se a personagem como elemento de um mundo narrativo construído, composta de corporalidade, psique e sociabilidade. Além disso, aceita-se a possibilidade de a audiência completar esta estrutura geral com inferências baseadas em seu conhecimento de mundo e das regras do mundo ficcional em questão. Por fim, considera-se importante a reconstrução da motivação e da constelação de relações das personagens como ferramentas analíticas para melhor entende-las.

Estabelecidos estes princípios, o artigo objetiva analisar como as personagens Nancy Botwin e Piper Chapman são apresentadas ao público nos episódios piloto das séries Weeds e Orange is the New Black, respectivamente. Ademais, pretende-se estabelecer relações comparativas entre estas protagonistas e tentar entender o papel da autoria em suas conformações.
Bibliografia

EDER, Jens; JANNIDIS, Fotis; SCHNEIDER, Ralf. Characters in Fictional Worlds. An Introduction. In: EDER, Jens; JANNIDIS, Fotis; SCHNEIDER, Ralf. Characters in Fictional Worlds: Understanding Imaginary Beings in Literature, Film and Other Media. Berlin: Walter de Gruyter GmbH & Co, 2010.



ESQUENAZI, Jean-Pierre. As séries televisivas. Lisboa: Edições Texto&Grafia, Ltda, 2011.



MITTEL, Jason. Complex TV: the poetics of contemporary television storytelling. Nova Iorque: New York University Press, 2015.