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  Título
Processo de criação do som em Medo do Escuro
Autor
Marina Mapurunga de Miranda Ferreira
Resumo Expandido
Nos primórdios do cinema, tínhamos o som nas exibições dos filmes presente por meio das execuções musicais ao vivo realizadas por solistas, pequenos grupos musicais ou até mesmo por orquestras. Havia a presença de uma escuta direta da música. Entendemos aqui a escuta direta como a “situação onde as fontes sonoras são apresentadas e visíveis” (CHION, 1983, p. 18). Nesse momento, o cinema se concentrava nas casas de espetáculos de variedades (MACHADO, 1997), como os vaudevilles, os cafés-concerto e os music-halls, lugares estes onde o público além de assistir aos filmes poderia conversar, dançar, beber e comer. O cinema foi se reestruturando e chegamos a uma forma hegemônica de cinema que, segundo Parente (2009, p. 24), envolve três elementos distintos: “uma sala de cinema, a projeção de uma imagem em movimento e um filme que conta uma história em cerca de duas horas”. Nesta forma cinema também surgiu uma forma hegemônica de escuta do cinema: a escuta acusmática de sons já pré-editados no filme. Todo som do filme passou a ser ouvido por meio dos alto-falantes. Os músicos, antes presentes no local de exibição, passaram a executar a música no processo de produção filme. Todos os sons do filme passam a ser pré-gravados, editados na ilha de edição, mixados e finalizados. Temos todas exibições com a mesma construção sonora, acabada. Hoje, reencontramo-nos com os primórdios do cinema, porém de forma reconfigurada, por exemplo, ao nos depararmos com práticas de live cinema, em que podemos retomar uma escuta direta com músicos ou sound designers executando a trilha sonora do filme em tempo real, com a edição de imagens também em tempo real, com espaços de exibição expandidos. Nossa pesquisa se trata em analisar processos de criação do som em obras cinematográficas que realizam a trilha sonora ao vivo. Para este trabalho, escolhemos estudar o processo criativo de construção sonora do longa-metragem de ficção Medo do Escuro, do cearense Ivo Lopes Araújo. Medo do Escuro se passa em uma Fortaleza pós-apocalíptica onde um homem solitário sobrevive diante de suas inquietações, se deparando com o bem e o mal. Nas exibições deste filme, a montagem visual se mantém a mesma, está fechada. Porém, o som se reconstrói a cada exibição. A “banda do filme” (como é chamada por Ivo Lopes) é composta pelo próprio diretor Ivo Lopes (nos sintetizadores, vocalizações e efeitos); por um dos atores do filme, Uirá dos Reis (nos samples de sons ambientes, vocalizações, sintetizador e percussão de objetos); pela diretora de arte Thais de Campos (no sintetizador, percussão de objetos, vocalizações e bateria eletrônica) e pelo guitarrista Vitor Colares (na guitarra, efeitos, percussão de objetos e vocalizações). Nosso objetivo é entender como ocorrem essas construções e planejamentos para execução do som em tempo real, não só pensando nos elementos sonoros, mas também no posicionamento físico e intenção destes compositores-intérpretes e suas relações com o público diante do filme. É importante destacar que trazemos aqui o conceito de criação proposto por Cecília Almeida Sales (2006) como “uma rede de conexões, cuja densidade está estreitamente ligada à multiplicidade das relações que a mantém. No caso do processo de construção de uma obra, podemos falar que, ao longo desse percurso, a rede ganha complexidade à medida que novas relações vão sendo estabelecidas”. A cada exibição Medo do Escuro se reconstrói, seja com a banda do filme, seja com novas parcerias sonoras. Os modos de realizações também vão se reconfigurando, se adaptando ao espaço de exibição e aos novos elementos sonoros.
Bibliografia

CHION, M. Guide des objets sonores: Pierre Schaeffer et la recherche musicale. Paris: éditions Buchet/Chastel, 1983.

MACHADO, A. (1997). Os primórdios do cinema: 1895-1926. São Paulo: Agência Observatório.

MORAN, Patrícia (org.). Cinemas Transversais. São Paulo: Iluminuras, 2006.

OSTROWER, F. Criatividade e Processos de Criação. 29 ed. Petrópolis, Vozes, 2013.

PARENTE, A. A forma cinema: variações e rupturas. In: MACIEL, Katia (org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2009.

SALLES, C. Redes da criação. 2 ed. Vinhedo: Editora Horizonte, 2006.

SCHAEFFER, P. Tratado dos objetos musicais: ensaio interdisciplinar. Trad. Ivo Martinazzo. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1993.

SCHOFIELD, G. Soundtrack-controlled Cinematographic Systems. 163 f. Tese - Newcastle University of Computing Science. Newcastle, 2013.

WEIDENAAR, Reynold. Live Music and Moving Images: Composing and producing the concert video. In: Perspectives of new music, Vol. 24, 1986.