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  Título
A(s) câmera(s) e a cena na série cinematográfica Atividade paranormal
Autor
Rodrigo Terplak
Coautor
Rogério Ferraraz
Resumo Expandido
No cinema de ficção, vários recursos utilizados, tanto técnicos, como o uso de câmeras portáteis, quanto dramatúrgicos, como atuação de não atores e improvisação, vêm do documentário. Uma forma fílmica que transita entre esses dois campos, o Mock Documentary, ou Mockumentary, por exemplo, é uma espécie de documentário “falso”, pois narra enredos ficcionais através de estratégias documentais. Os filmes realizados ao estilo simulado de found footage, ou das “gravações encontradas”, fazem parte desse universo de obras construídas a partir da hibridização das estruturas narrativas e estilísticas do cinema documentário e de fi cção.



Neste trabalho, interessa-nos o falso found footage de horror, que apresenta características que imitam uma certa estilística amadora. Como objeto de análise, propõe-se um estudo da série cinematográfica “Atividade paranormal” (2009-2015), a saber: “Atividade paranormal” (2009), “Atividade paranormal 2” (2010), “Atividade paranormal 3” (2011), “Atividade paranormal 4” (2012), “Atividade paranormal: Marcados pelo mal” (2014) e “Atividade paranormal: Dimensão fantasma” (2015). Pretendemos analisar os artifícios utilizados na construção dessa série, especialmente um dos elementos de sua composição, a câmera diegética, que simula vídeos caseiros e de sist emas de vigilância.



O primeiro “Atividade paranormal”, por exemplo, se utiliza de câmera digital, sendo esta uma câmera diegética, que faz parte da cena fílmica, já que ela é manuseada (câmera na mão) durante o dia por um dos personagens principais, que deixa o equipamento fixo num tripé durante à noite. O que torna a série ainda mais intrigante é o desenvolvimento de uma sequência para a outra. Em cada novo episódio, existem elementos novos, não só pela expansão da ação da história, mas também pela variação dos parâmetros estilísticos e narrativos. Isso gera sempre a busca por novas soluções, especialmente, através dos vários tipos de câmeras que vão sendo utilizados, tais como: daddy-cam, inclusive com visão noturna; câmeras de sistemas de vigilância; câmera VHS (quando, no terceiro episódio, é mostrada uma história pregressa em relação aos acontecimentos das partes 1 e 2); câmeras de celulares e computadores; entre outros.



Assim, é possível afirmar que tais filmes ao estilo found footage são construídos, parcial ou totalmente, a partir de falsos registros amadores de fatos (extra)ordinários. Nos enredos de todos esses filmes, uma câmera (ou mais de uma) manuseada por personagens da ficção registra algo incomum, quase sempre de natureza violenta e, em alguns casos, sobrenatural. Esta câmera é a câmera diegética, a câmera que faz parte do espaço fílmico. A partir de autores que escreveram sobre estética e narração fílmica em geral (AUMONT, 1995), sobre os limites, diferenças e similaridades entre a ficção e o documentário (CARROLL, 2005; NICHOLS, 2008), sobre o cinema de horror contemporâneo (ROSCOE, 2000; CÁNEPA, 2013) e sobre o próprio fenômeno “Atividad e paranormal” e o uso de câmers diegéticas (BORDWELL, 2012; CARREIRO, 2013), entre outros, este trabalho pretende colaborar para o avanço dos estudos sobre gênero cinematográfico, em especial o horror, e sobre questões narrativas e estilísticas em particular.
Bibliografia

AUMONT, J. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995.

BORDWELL, D. “Return to Paranormalcy”. Observation on film art. 2012. [http://www.davidbordwell.net/blog/2012/11/13/return-to-paranormalcy/].

CÁNEPA, L; FERRARAZ, R. “Fantasmagorias das imagens cotidianas: o estranho e a emulação do registro videográfico doméstico no cinema de horror contemporâneo”. Visualidades hoje. Org. de A. Brasil; E. Morettin; M. Lissovsky. Salvador: EDUFBA, 2013.

CARREIRO, R. “A câmera diegética: legibilidade narrativa e verossimilhança documental em falsos found footage de horror”. Significação. v. 40. SP: USP, 2013. [http://www.revistas.usp.br/significacao/article/view/71683/74799].

CARROL, N. “Ficção, não-ficção e o cinema da asserção pressuposta” Teoria contemporânea do cinema: Vol.II. Org. de F. Ramos. SP: Senac, 2005.

NICHOLS, B. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2008.

ROSCOE, J. The Blair Witch Project. 2000. [http://www.ejumpcut.org/archive/onlinessays/JC43folder/BlairWitch.html].