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  Título
Olivier Culman: a fotografia e o autorretrato nos limiares da ficção
Autor
Maria Teresa Ferreira Bastos
Resumo Expandido
No campo das artes e da literatura, há algum tempo que questões dicotômicas como realidade/ficção e imagem/objeto vem sendo debatidas e suplantadas pela reivindicação de um olhar mais incorporativo que dividido. A experiência artística contemporânea já não delimita e nem necessita destas fronteiras como horizonte hermenêutico de análise, mas sim, como observação de seus fenômenos. O objetivo desta comunicação é tomar como referência alguns trabalhos que evidenciam estratégias - consideradas anteriormente díspares - e refletir como se tornaram possibilidades criativas que permitem a construção estética e simbólica de seus objetos. Como opção analítica principal encontra-se o trabalho fotográfico do francês Olivier Culmann (1970 - ), intitulado “The others” exposto em 2015 no Musée Niépce em Chalon-sur-Saône, na França, mas elaborado de 2009 a 2015. Neste trabalho, o fotógrafo explora os limites da fotografia e questiona a elaboração do estatuto social através da construção da imagem de si. “The others” é fruto de uma grande pesquisa não só da sociedade da Índia, como da representação fotográfica e pictural de seu povo. “The Others” está dividido em quatro partes. A primeira fase é constituída por retratos tradicionais captados nos estúdios fotográficos de cidades da Ìndia como Nova Déli e Bombain. Na segunda fase, ele propõe a manipulação da imagem captada a partir dos estúdios, com fusão de elementos criados digitalmente. Um terceiro momento ele se propõe a jogar com a questão do retoque de imagens danificadas e, com isso, inventa uma estratégia de criação e colorização de novos rostos. Na quarta etapa ele utiliza a pintura a partir da fotografia, surgindo aí a possibilidade de uma nova interferência criativa. Interessa-se refletir sobre a constituição contemporânea do espaço artístico que se caracteriza pelo que temos chamado de cena expandida, onde as várias linguagens se relacionam, sem hierarquia. Nesse campo estendido, as imagens produzidas em uma arte sobrevivem e se atualizam em outra(s) (Rancière, 2012) com uma potência e vitalidade impressionantes e, neste sentido, esta é uma questão importante para as artes e o cinema contemporâneos. Apaixonado pelo imaginário popular e pelos códigos de encenação da fotografia, Oliver Culmann utiliza o retrato a partir de sua própria imagem e a performance para explorar as possibilidades identitárias da Índia. Pretende-se dar ênfase à temática do retrato e autorretrato a partir do ponto de vista de que a produção contemporânea de retratos tem como traço não mais, especificamente o resultado na imagem de semelhança a um retratado pré-existente, que compareceu para o registro e que sua imagem vai seguir para o espectador como uma oferta de identidade, de inscrição social - aos moldes da tradição da histórica da pintura, cuja estética e obsessão, de certa maneira a fotografia herdou. Muito da produção contemporânea tanto encena e critica esta característica, como se inspira nela para criar um dado de artificialidade, para justamente propor ao espectador imediatamente um jogo e, com isso, embaralhar as fronteiras entre ficção/real, enfim, deixando claro que tudo está junto. O gênero então é transposto de suas características originais instituídas pelos dicionários de arte a partir do século XVII, conforme diagnostica Edouard Pommier (1998), entendido como “a representação de uma pessoa ao natural, feito a sua semelhança” para uma reivindicação de imagem autônoma, sem vínculo com a semelhança, como bem nos identifica Jean-luc Nancy (2000). O retrato é uma criação, do outro via imagem, e como tal a ideia de semelhança também é uma idealização, um costume. Se há um viés identitário, quase biográfico em usos do retrato para dar conta da semelhança do outro, ele também pode ser visto como imagem autônoma e justamente no momento contemporâneo em que esta característica é aproveitada como estratégia artística.
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