Voltar para a lista
 
  Título
A questão Brecht: Ôshima e os signos de teatralidade
Autor
Pedro de Araujo Nogueira Tinen
Resumo Expandido
Frequentemente referenciado como um diretor Brechtiano, Nagisa Ôshima, em sua busca por um cinema efetivamente político, fez uso de diversas técnicas que almejaram o distanciamento crítico do espectador. Porém, um segundo olhar revela que nem todas as técnicas utilizadas são, necessariamente, variações cinematográficas das proposições de Brecht. Em O Enforcamento (Koshikei, 1968), explorou o potencial político dos modos de representação ao abordar a história de R., um personagem coreano condenado à morte no Japão. Escancarando a teatralidade da justiça, a sobrevivência do protagonista à tentativa de execução, e sua subsequente amnésia, obriga os oficiais da prisão a reencenarem o crime ao qual ele havia sido condenado, na tentativa de forçar a recuperação da memória através da encenação. O resultado é uma inversão do processo legal: através da gestualidade, são as ações dos carrascos que são postas em evidência, não as do acusado.

Em seu livro ‘To the Distant Observer: Form and Meaning in the Japanese Cinema’, Noël Burch diferencia o modo ocidental representacional do modo japonês apresentacional, no qual, o segundo se distingue do primeiro pela evidenciação do artifício da forma. De acordo com Burch, o modo apresentacional foi adaptado para o cinema no Japão dos anos de 1930, influenciado pelas tradições do kabuki, kodan e bunraku. Em uma tentativa de demarcar uma diferença, a alteridade do cinema japonês é tomada como alternativa ao cinema narrativo burguês, em uma análise que mistura os efeitos do modo apresentacional das artes tradicionais japonesas com o modernismo cinematográfico.

‘Brechtiano’ e ‘apresentacional’, apesar de suscitarem efeitos similares, não são sinônimos. De tal modo, a análise das políticas de reflexividade de O Enforcamento revela as idiossincrasias da crítica de Burch, que valoriza a propriedade apresentacional do cinema japonês pela maneira com que é produzido um distanciamento crítico e afetivo, atribuindo assim, uma qualidade anacronicamente moderna ao cinema clássico japonês. Apesar de seminal, o argumento de Burch sobre a diferença cultural implica na construção de um cinema nacional homogêneo e de alteridade idealizada.

O Enforcamento é um dos marcos da Nouvelle Vague Japonesa, sua estrutura repetitiva e burlesca se aproxima do teatro do absurdo e questiona a possibilidade de se gerar identificação através da representação clássica. Com a análise fílmica e a discussão teórica, esta comunicação tem o objetivo de inferir sobre o potencial político da forma e sobre um dos debates mais críticos nos estudos de cinema asiático hoje: os modos de representação.
Bibliografia

ANDERSON, Joseph e RICHIE, Donald. 1958. “Traditional Theater and the Film in Japan”. Film Quarterly v. 12 n. 1: 2-9.

BONITZER, Pascal. 1970. “Oshima et les corps-langages”. Cahiers du Cinéma 218 (Março) : 30-34.

BURCH, Noël. To the distant observer: form and meaning in the Japanese cinema. Berkeley: University of California Press, 1979.

NAGIB, Lúcia. World Cinema and the Ethics of Realism. Nova Iorque: Continuum, 2011.

OSHIMA, Nagisa. Cinema, censorship, and the state: the writings of Nagisa Oshima, 1956-1978. Edição e introdução de Annette Michaelson. Cambridge: MIT, 1992.

POLAN, Dana. “Politics as Process in Three Films by Nagisa Oshima”. Film Criticism v. 8 n.1: 35-41.

TURIM, Maureen. The Films of Nagisa Oshima: images of a Japanese iconoclast. Berkeley, Los Angeles, Londres: University of California Press, 1998.