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  Título
O produtor no cinema contemporâneo. Cotidiano, partilha e resistências
Autor
Mannuela Ramos da Costa
Resumo Expandido
Historicamente, produtores e diretores do cinema ocupam espaços privilegiados no imaginário sobre a realização cinematográfica. Porém, mesmo no contexto do cinema independente brasileiro, produtores foram eventualmente colocados em oposição à liberdade de criação dos diretores. Alguns ligaram-se às tentativas de estabelecer uma indústria do cinema no Brasil, especialmente na década de 1950, fundando companhias em que muitos assumiram o papel de empreendedores. Em todos os casos, eram os produtores a estabelecer diálogos com as esferas institucionais (o Estado, os exibidores, os distribuidores), muitas vezes sob a égide do resultado de público. À semelhança do que ocorreu na França e nos EUA, entre as décadas de 1960 e 1970, muitos diretores buscaram fundar suas próprias companhias, na tentativa de garantir a liberdade para decisões autorais. O fenômeno repetiu-se durante os anos seguintes, e tornou-se bastante evidente na última década, consequência dos processos de institucionalização da política pública para o segmento no país.

Apesar de serem bastante presentes, e com atuação evidente e essencial para o desenvolvimento das atividades cinematográficas no Brasil, o fato é que pouco estudo foi dedicado aos produtores. À exceção de alguns trabalhos – entre os quais destaco o de Luís Alberto da Rocha Melo (2008), que preocupa-se em narrar a atuação desses profissionais – a maioria das pesquisas atem-se às figuras dos diretores, dos atores, etc.; ao passo que outros, voltados à história ou à política cultural cinematográfica, citam a atuação de alguns produtores, mormente quando trata-se de estabelecer as relações do campo cinematográfico com o Estado (AUTRAN, 2013, et. al.).

Busco, portanto, emancipar a figura do produtor desse lugar historicamente estabelecido (RANCIÈRE, 2002), destacando o caráter reflexivo de suas práticas. Para tanto, gostaria de propor a metáfora da célula, através da qual sugiro que o produtor e diretor formam o núcleo da realização cinematográfica, ambos em contato com os demais elementos constituintes da produção. O produtor, atua também nas membranas desta célula, regulando os fluxos informacionais. No contexto político e econômico do cinema independente contemporâneo, produtores e diretores apresentam uma relação simbiótica, em que suas funções eventualmente se tornam ambíguas: diretores veem-se pressionados a pensar e atuar como produtores; produtores sabem que sua atuação não se limita a questões administrativo-financeiras, pois é fortemente atravessada por questões criativas.

Entre a passividade e a resistência, produtores e diretores criam o espaço da partilha (Rancière, 2009), em que o exercício da alteridade engendra “artes de fazer” (CERTEAU, 1998.) específicas e fundam-se “táticas de resistência”, alterando objetos e códigos vigentes. Para o autor, o consumo deve ser visto como uma prática produtiva:



“A uma produção racionalizada, expansionista, além de centralizada, barulhenta e espetacular, corresponde outra produção, qualificada de ‘consumo’: esta é astuciosa, é dispersa, mas ao mesmo tempo ela se insinua ubiquamente, silenciosa e quase invisível, pois não se faz notar com produtos próprios, mas nas maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem econômica dominante.” (ibid, p. 39)



À semelhança, proponho pensar o papel do produtor no cinema independente contemporâneo. Para Certeau (ibid.), a construção do cotidiano opera-se na invisibilidade, na qual as práticas podem criar "microrresistências" diante de um ambiente opressivo, hegemônico, fundando liberdades que relativizam o contexto de dominação. Em adição, sua visão da construção da história e da importância do "homem ordinário", leva-me a crer que para a compreensão da produção cinematográfica contemporânea é preciso atentar para as práticas do produtor, posto que é ele o elemento-chave das mediações entre o ato artístico e o ambiente institucional (legal, político, econômico), que dão forma ao cinema autoral no Brasil.
Bibliografia

AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec Editora, 2013.

CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Trad.: Ephraim Ferreira Alves. 3a ed. Petrópolis: Vozes, 1998.

MACHADO, Marta. ALMEIDA, Ana Adams de (colab.). Tudo que você queria saber sobre comercialização de filmes nacionais mas não tinha a quem perguntar. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Porto Alegre, 2010.

MAFFESOLI, Michel. Les temps des tribus. Le déclin de l’individualisme dans les sociétés postmodernes. Paris: La table ronde, 2000. pp. 09-60;130-183.

MELO, Luís Alberto da Rocha. Cinema Independente no Brasil: anos 1950. In: Hamburger, Esther; Amancio Tunico. et. al. (orgs.). Estudos de Cinema. São Paulo, Annablume; Fapesp; Socine, 2008. (Estudos do Cinema - Socine, IX). pp. 377-382

RANCIÈRE, Jaques. A Partilha do Sensível. Estética e Política. Trad.: Mônica Costa Netto. São Paulo: ed.34, 2009

___. O espectador emancipado. Trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: M.Fontes, 2002.