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  Título
Reflexões sobre a formação da cineasta Mbya Guarani Patrícia Ferreira
Autor
Clarisse Maria Castro de Alvarenga
Resumo Expandido
O presente trabalho se constitui como um desdobramento de dois trabalhos precedentes que realizei no ano de 2016. Primeiramente, apresentei “Cinema indígena e educação: a experiência do filme Desterro Guarani (2011)", no encontro da Asaeca de 2016 e, em seguida, o artigo “Por uma pedagogia das imagens com os Mbya Guarani”, no encontro da Socine. No primeiro trabalho buscava entender como um determinado filme realizado pelos Mbya Guarani (no caso, o filme Desterro Guarani) nos propõe uma pedagogia do cinema. No segundo, minha sugestão era estender a reflexão realizada sobre esse filme para os demais filmes da cinematografia Mbya Guarani do projeto Vídeo nas Aldeias. Em ambos os trabalhos, procurei detectar nos filmes realizados pelo coletivo Mbya Guarani como essa pedagogia se inscreve na forma dos filmes por meio da análise dos procedimentos expressos tanto na tomada da imagem quanto na montagem, motivada pelo trabalho de Serge Daney (2007). Dando prosseguimento a essa investigação, pretendo agora abordar a emergência da atuação da mulher no cinema Mbya Guarani, com ênfase em seu processo de formação.



Vou me deter no trabalho da cineasta Patrícia Ferreira (Keretxu), professora na aldeia Koenju (São Miguel das Missões, RS) e uma das mulheres mais atuantes no quadro de cineastas do Vídeo nas Aldeias. Ela colaborou em filmes como Bicicletas de Nhanderu (2011), Desterro Guarani (2011), Tava, a casa de pedra (2012), Mbya Mirim (2013), entre outros. Seu último trabalho é um filme cuja proposta inicial era traçar um retrato de Elsa, sua mãe. Por isso o filme recebeu o título provisório de Para Reté (que é o nome de Elsa em Guarani). Ao longo do processo de montagem, revendo o material, percebeu-se algo que já se manifestava desde as filmagens: o que estava em jogo era um retrato de gerações, envolvendo Patrícia e sua relação com Elsa (sua mãe), com Géssica (sua filha) e com Dona Santa (avó de Patrícia).



O trabalho é fruto de uma oficina de formação continuada ainda em 2015 ministrada por Fernando Ancil, Tita e Ana Carvalho, do Vídeo nas Aldeias. Em seguida, houve uma segunda oficina de montagem ministrada em Olinda. Desse processo, emergiram as questões e a reflexão de Patrícia sobre sua relação com a mãe, com a filha, com a avó e os papéis que assumem cada uma delas entre si. O entendimento de Patrícia sobre a linguagem cinematográfica se deu na medida de sua compreensão sobre suas relações no grupo, sobre o seu lugar no filme e sobre sua condição como mulher Mbya. Para entender como isso se deu lanço mão do conceito de comunidade do filme (Alvarenga, 2005).



É importante ressaltar que o filme ainda não foi finalizado. Mas, um primeiro corte, composto de cerca de 40 minutos, levou Patrícia para mostras e seminários, entre eles o seminário ”Olhar um ato de resistência“ promovido por Andrea Tonacci juntamente com a Associação Filmes de Quintal, em 2015, em Belo Horizonte. Em maio de 2017, Patrícia participará do Seminário Temático Mulher Indígena, dentro do contexto do Curso de Formação Intercultural para Educadores Indígenas, na UFMG. Nesse sentido, teremos oportunidade de exibir o filme para um grupo de mulheres indígenas e perceber como esse material, nesse contexto específico, constitui aquilo que César Guimarães chamou de comunidade de cinema (2015).



Neste trabalho, pretendo, portanto, tomar a produção das imagens como experiência formativa, que envolve aspectos afetivos, políticos e éticos que são indissociáveis das escolhas estéticas a partir da abordagem da comunidade do filme (ALVARENGA, 2005). Chamo atenção para o fato de não analisar uma obra acabada mas sim os processos que a possibilitam, em seu momento de feitura (tanto no momento da tomada das imagens quanto na montagem). Outro ponto que será importante é a verificação de como esse material, mesmo inacabado, circula e constitui uma comunidade de cinema (GUIMARÃES, 2015) de forma circunscrita ao ser exibido num contexto específico.
Bibliografia

ALVARENGA, Clarisse. Comunidades por vir e imagens provisórias. In: Revista Devires Cinema e Humanidades, v. 3, n. 1, jan-dez, 2006, p. 166-179.

DANEY, Serge. A rampa. Cahiers du cinema 1970-1982. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.

GUIMARÃES, César. O que é uma comunidade de cinema? In: Revista Eco Pós, Dossiê Arte, Tecnologia e Mediação, v. 18, n. 1, 2015, p. 44-56.