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  Título
O espaço entre visível e audível: zona de subversão no audiovisual
Autor
Alexandre Brasil de Matos Guedes
Resumo Expandido
Em conferência de 1985 intitulada O que é o ato criativo?, Gilles Deleuze observava que “[...] uma ideia cinematográfica [seria] fazer uma disjunção do visual e do sonoro[...]”(DELEUZE, 1987, 24’27’’) . O contexto amplo da conferência é sua proposta da arte como forma de resistência aos mecanismos do poder e àquilo que ele entende (juntamente com Foucault) como sociedade de controle. Deleuze define a ideia artística como uma coisa simples, imbricada no processo poético do meio em questão, opondo-a à noção de conceito, que por sua vez é ligado à filosofia e poderia ser desenvolvido a partir da ideia. Ele nos fala um pouco de literatura e de teatro, apenas para enfatizar a peculiaridade deste lugar propriamente cinematográfico da ideia. Podemos depreender de sua posição que operar de forma disjuntiva estes dois aspectos do filme, o visível e o audível, seria uma forma propositiva de fazer arte por meios audiovisuais, ao trabalhar ali mesmo onde esta linguagem específica tem sua característica marcante em relação a outras formas de arte. Deleuze define, assim, no campo amplo das artes, um lugar próprio do cinema, que aqui estenderemos a outras formas audiovisuais. Sua ênfase recai sobre a relação entre os campos visual e aural. Mais ainda, parece propor uma diretriz que teria a capacidade para se contrapor e resistir aos vetores de forças da sociedade de controle. Neste trabalho usarei estas premissas para confrontar algumas ideias de Michel Chion sobre a relação audível/visível, surgidas principalmente no âmbito daquilo que se costuma chamar de cinema convencional. A proposta é causar atrito entre os conceitos de audiovisão, síncrese, contrato audiovisual e valor adicionado, de maneira a garantir, para elas, um lugar dentro de uma discussão menos ingênua do que sejam as relações possíveis entre as imagens visuais e as imagens aurais. Estas relações poderiam ter, como ponto de partida, seu campo ligeiramente expandido por um quadro de oposições que se apresentaria da seguinte maneira:



Audível ___________________________________visível





Não-audível_____________________________Não visível





Onde o não-audível e o não-visível seriam os horizontes contra os quais se apresentam os fenômenos audíveis e visíveis. O eixo de oposições conceituais, contradições, audível/visível poderia ser chamado de complexo; o eixo não-audível/não-visível, de neutro. Os vetores transversais (deixes) audível/não visível e visível/não audível, as relações verticais, de oposição direta (schemas) audível/não-audível e visível/não-visível, todos produzem relações lógicas possíveis e ocorrentes nas interações entre imagens sonoras e visuais .

Meu propósito é chamar a atenção para algo que pode ser pensado como uma zona de contato e espaço de liminaridade entre o visual e o sonoro, onde aconteceriam atravessamentos, negociações, mediações que incluiriam, mas não se reduziriam, a qualquer tipo de premissa hierárquica, mas principalmente relações de caráter bastante fugidio. Talvez não exista, afinal, tanta diferença entre falar de um espaço entre audível e visível ou de espaços entre uma obra e outras obras, entre sujeitos e objetos, entre imagem e escrita, ou entre teoria e prática. É possível que o problema dessas mediações se estenda, de forma consistente, por sobre todos estes vãos. Estes seriam, então, apenas lugares de eleição para tratarmos do problema profundamente contemporâneo de ativar zonas de contato, linhas de fronteira que não pertençam nem a um lugar nem a outro, lugares fora e de reinvenção. Frestas, que nos permitiriam escapar dos lugares protocolares, sejam eles institucionais, discursivos, analíticos ou produtivos.
Bibliografia

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