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  Título
A função crítica segundo Serge Daney e os Cahiers
Autor
Ricardo Lessa Filho
Resumo Expandido
O interrogante daquilo que Serge Daney chamou de “função crítica” (fonction critique), constituiu desde o princípio o ponto essencial de trabalho e a identidade dos Cahiers du cinéma. Sem dúvida, no começo dos anos cinquenta o “ofício” da crítica de cinema se encontrava na França bastante desvalorizado. E alguém como François Truffaut, que se converteria em um de seus mais eminentes representantes, podia afirma que “nenhuma criança francesa jamais sonhou em converter-se em crítico de cinema quando crescesse”. No próprio momento em que Truffaut escrevia isto, em 1955, mas também Rivette, Godard, Rohmer, Chabrol e a geração da Nouvelle Vague, a crítica se converteu, na França, no sonho do adolescente cinéfilo. A partir desta época, ao contrário do que afirmava Truffaut, são (relativamente) numerosas as crianças francesas que desejavam converter-se em críticos de cinema “quando crescessem”. E isso não deixou de ocorrer no princípio dos anos de 1960.



Mas a partir desta “fonction critique” postulada por Daney, qual seria, justamente, a função da crítica? O que é, portanto, ser um crítico? Antoine de Baecque traça um caminho possível: “ser crítico significa construir uma representação do mundo”, e ao mesmo tempo, continua o historiador francês, ser crítico é “ser lúcido e pôr por escrito essa lucidez com a ajuda dos filmes” (DE BAECQUE, 2005, p.205), enquanto Serge Daney (1974) pensou que a justeza desta função crítica era a de compreender os filmes, mas sobretudo a maneira na qual o mundo que eles expressam encaixa-se no mundo que lhes rodeia.



O que os Cahiers dos anos 1960 (a forma do filme) e 1970 (a ideologia; como filmar a revolta sem perder o vestígio da forma da arte?) podem mostrar à crítica feita no Brasil (sem nunca perder de vista as diferenças que compõe as tradições artísticas dos dois países)? E até que ponto o conceito de curadoria no cinema deveria estar mais intimamente ligada ao pathos do que ao logos? Não é isto o grande legado da história dos Jovens Turcos (e da geração seguinte à geração fundadora): a cinefilia, como pensada por Serge Daney, como um gesto não meramente de paixão (filia) ao cinema, senão de cinefils, de filhos do cinema, amplificando a ideia de filia para filiação, da paixão (que pode extinguir-se a qualquer momento) para a filiação (sanguínea) – um pai e uma mãe serão, para sempre, ligados pelo sangue aos filhos.



A crítica faz a linguagem viver?



Diante de um mundo em movimento, diante das ideias que evoluem, é necessário uma vez mais realizar as perguntas: o que é ser um crítico? A crítica é capaz de fazer a linguagem viver? A resposta não é imediata. Sem dúvida se conjuga no plural, e suas verdades giram ao redor da questão da transmissão como do juízo de valor no seio de um grupo heterogêneo. Ser crítico consiste, sucessivamente, de diversas maneiras, em transmitir os filmes: aos leitores, aos outros filmes, à comunidade de cinéfilos, às ideias procedentes das outras artes, às metáforas do mundo. A vida da crítica está profundamente ligada à linguagem que ela escolhe desvendar, portanto, à forma que ela enquanto gesto interminável de compreensão elege como sua. É esta a sua vida, a sua crença - a crítica de cinema é, sobretudo, uma profissão de fé.



Para pensar o lugar da crítica de cinema, para pensar a fundamental necessidade que ela tem para inspirar-se em outras artes (Didi-Huberman, Agamben, Rancière etc), George Steiner expõe algo que guia intimamente o nosso texto: “o crítico vive de segunda mão. Ele escreve sobre. (...) A crítica existe pela graça do gênio de outros homens. (...) Não é a crítica que faz a linguagem viver” (STEINER, 1988, p.21). Para concordar discordando, para sentir o sopro da paixão que é necessário existir em toda fonction critique, o nosso trabalho tentará tocar, também, nesta aporia de seu “ofício”: a crítica, em seu momento mais inspirador, faz sim a linguagem viver – e ousaríamos dizer, quase inventa uma outra arte a partir da arte que ela ama.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. El final del poema. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2016.

COCCIA, Emanuele. A vida sensível. Florianópolis: Desterro, 2010.

DANEY, Serge. Fonction critique. In: Cahiers du cinéma, n°248 (janeiro), nº249 (fevereiro-março), nº250 (maio) e nº253 (outubro-novembro), 1974.

______. Perseverancia. Madrid: Shangrila Textos Aparte, 2015.

DE BAECQUE, Antoine. Presentación. In: ______. (org.) Teoría e crítica del cine - avatares de uma cinefilia, pp 205-208. Barcelona: Paidós, 2005.

______. Retours de cinéphilie. In: Cahiers du cinema, nº460 (outubro), 1992.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Ante el tiempo. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2006.

DOUCHET, Jean. L' art d'aimer. In: Cahiers du cinéma, nº126 (dezembro), 1961.

GOMES, Paulo Emílio Sales. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

RANCIÈRE, Jacques. El destino de las imágenes. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2011.

STEINER, George. Linguagem e silêncio. São Paulo: C. das letras, 1988.