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  Título
XAPIRI: O CINE-TRANSE PELAS LENTES E CORES DE UM RITUAL YANOMAMI
Autor
Caio de Salvi Lazaneo
Coautor
Thomaz Marcondes Garcia Pedro
Resumo Expandido
A presente comunicação propõe uma análise do filme "Xapiri", de 2012, um documentário experimental, poético-obervativo (NICHOLS, 2012) a propósito de um ritual xamânico ocorrido na aldeia yanomami Watoriki, no estado do Amazonas, e dirigido por Leandro Lima e Gisela Motta, Laymert Garcia dos Santos e Stella Senra, Bruce Albert, a partir da abordagem do conceito de "cine-transe" (ROUCH, 2003) e das aproximações e disjunções com o filme etnográfico, tomando aqui como referência "Os mestres loucos", dirigido por Jean Rouch e lançado em 1955.

Neste escopo, interessa-nos portanto observar e analisar relações estéticas e poéticas ensejadas por filmes que partem de premissas inerentes ao campo etnográfico, mas que, no entanto, as transcendem a partir da experimentação, emulação e livre criação, utilizando-se para tanto de soluções de linguagem não-naturalistas, isto é, de modo geral, filmes que propiciam um reordenamento do princípio etnográfico.

De acordo com Bruce Albert, um dos realizadores, o filme não procura "descrever e muito menos explicar" os processos que acompanham o ritual Xapiri, por outro lado oferece um tratamento sensível, uma estética alcançada, dentre outras formas, a partir do uso de "imagens-eco" (SANTOS; SENRA, 2012), bem como de evidentes distorções cromáticas, anamorfoses e sobreposições e inversões de camadas temporais, ao que Albert compreende como uma "simulação tecnológica livre", buscando aproximar-se das imagens xamânicas yanomami (utupë).

Tomamos como ponto de partida para a conceitualização do filme etnográfico, o mencionado filme de Jean Rouch, bem como a compreensão de Ribeiro (2007) a propósito da relação entre Rouch e a antropologia visual. Em "Os mestres loucos" procuramos compreender uma proposição fílmica que privilegiou uma abordagem explicativa e descritiva de um ritual - no caso do filme de Rouch, a possessão dos Hauka no Níger -, própria do modo expositivo do documentário (NICHOLS, 2012), algo rejeitado sobremaneira por "Xapiri". De outro modo, compreendemos que a sugestão de Rouch para o "cine-transe", mais do que uma potencial metáfora inerente aos processos de filmagem de rituais (que perpassam, por excelência, estados de transe) configura-se sobretudo enquanto uma fundamentação possível de uma "cine-antropologia, corpórea e sensível" (HIKIJI, 2013, p. 117), onde o cineasta é afetado pelo fenômeno e reage sob os mesmos parâmetros em relação a este, enquanto "um estranho estado de transformação" (ROUCH, 2003), prefigurando-se, assim, um modelo adequado à antropologias fílmico-poéticas como Xapiri.

Em síntese, da mesma forma que Xapiri aponta-nos enquanto um filme que, a partir de uma série de referenciais, pode relacionar-se à categoria "cine-transe", tal qual proposta por Rouch, parece-nos relevante, entretanto, distinguí-lo dos paradigmas que subsidiam o filme etnográfico. Esta proposição, enseja-nos alguns questionamentos que buscaremos ao longo do artigo problematizar, tais como: A linguagem proposta por "Xapiri", adequa-se às dinâmicas ritualísticas próprias do povo yanomami, i.e, enquanto experiência estética propõe um diálogo intra-transe (o transe yanomami abordado a partir do transe cinemático)? Em uma perspectiva autoral, em que lugar podem-se situar as produções "transculturais", elaboradas a partir de intensa troca criativa entre indígenas e não indígenas (entre o insider e o outsider)? Neste sentido, uma outra importante contribuição de Rouch - a Antropologia Partilhada - aponta-nos como um caminho substancialmente profícuo. Por fim, acreditamos que o livro, A Queda do Céu (ALBERT; KOPENAWA, 2015), também possa ser útil no sentido de que estabelece diversos diálogos com o filme ao apresentar para um público não-indígena certas características da cosmologia do povo yanomami, partindo da perspectiva do xamã Kopenawa, uma referência como liderança desse povo. Kopenawa assina o argumento do filme “Xapiri” e divide a autoria do seu livro com um dos diretores, Bruce Albert.
Bibliografia

ALBERT, Bruce e KOPENAWA, Davi. A Queda do Céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

GONÇALVES, Marco Antônio, O real imaginado. Etnografia, cinema e surrealismo em Jean Rouch. Rio de Janeiro, Topbooks/ Capes, 2008.

HIKIJI, Rose Satiko G. Rouch compartilhado. Iluminuras, Porto Alegre, v.14, n.32, jan./jun. 2013

LAZANEO, Caio de Salvi. Produção partilhada do conhecimento e reticularidade fílmica. (Tese de Doutorado em Teoria e Pesquisa em Comunicação) - ECA - USP, São Paulo, 2017.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas; Papirus, 2012.

RIBEIRO, José da Silva. Jean Rouch: Filme etnográfico e Antropologia Visual. Doc On-line, n.03, Dezembro 2007.

ROUCH, Jean. The camera and Man. In: CINÉ-ETNOGRAPH/ Jean Rouch. Visible evidence v. 13. 2003.

GARCIA DOS SANTOS, Laymert, e SENRA, Stella. Xapiri e a imagem-eco do xamanismo. Catálogo Forum Doc BH. 2012

SZTUTMAN, Renato. 2004. Imagens perigosas: a possessão e a gênese do cinema de Jean Rouch. Cadernos de campo, n.13, 2005.