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  Título
Afetos e Narrativas Mistas em As Mil e Uma Noites, Volume 1 O Inquieto
Autor
Thalita Cruz Bastos
Resumo Expandido
A reatualização do realismo como campo de disputa de sentidos e experiências produz outras formas de olhar para os conceitos desenvolvidos na alta modernidade. Ao olharmos para as estéticas realistas que se configuraram na contemporaneidade é possível perceber que o papel das sensações como modo de produzir realidade tem aumentado consideravelmente. A relação entre a obra audiovisual e o espectador tornou-se fundamental para garantir que a experiência realista aconteça. As maneiras de estabelecer esse vínculo com o espectador são diversas. Seja através do trauma, do choque, seja através da produção de afeto e outras sensações, o fato é que o realismo expandiu seus horizontes.

Miguel Gomes faz parte da nova geração de cineastas portugueses que despontou no início dos anos 2000, seguindo o caminho aberto por nomes como Manoel de Oliveira e Pedro Costa. A trilogia d’As Mil e Uma Noites (2015) se caracteriza por um conjunto de filmes que embaralham claramente as fronteiras entre documental e ficcional, realismo e fantasia. Miguel Gomes inspira-se no livro As mil e uma noites para contar histórias de Portugal contemporâneo, criando um espaço fílmico complexo, no qual personagens ficcionais e habitantes de diversas regiões do países se encontram para tentar responder as demandas desse momento conturbado na história de Portugal.

A abordagem desenvolvida pelo diretor mistura realismo e artifício para tratar dos problemas sociais e políticos que estavam acometendo Portugal no intervalo de um ano (de agosto de 2013 a agosto de 2014). A forma escolhida pelo diretor em tratar desses problemas passa pelo artifício, pelo engajamento dos corpos dos atores, dos não-atores envolvidos nas filmagens, como também da própria equipe. Todos estão tentando narrar as experiências pelas quais já passaram, mas principalmente fazer sentir essa realidade, que ganha uma outra intensidade quando narrada pelas vias da ficção fantástica.

Num cenário contemporâneo mundial de complexidades políticas e ideológicas nada mais comum do que o exercício cinematográfico de traduzir em imagens e sons as experiências da realidade. Entretanto, o caráter muitas vezes absurdo, ou inesperado dos desdobramentos reais dos acontecimentos convida os realizadores a buscar outras combinações de mídias e gêneros para alcançar seus objetivos narrativos.

Tanto num contexto europeu pós-crise com a presença recente de refugiados de guerra e o reforço de um comportamento preconceituoso em relação ao outro, quanto na América Latina e a crise dos governos de esquerda que culminaram em mudanças administrativas bruscas em países como Argentina e o caso recente vivido no Brasil. Todas essa instabilidade política estimula questionamentos e insatisfações que encontram campo fértil nas artes, e o cinema não deixa de produzir narrativas sobre essas crises contemporâneas.

A fim de nos ajudar a compreender os elementos agenciados por Miguel Gomes para estruturar o que chamamos de narrativa mista, ou seja, que utiliza diferentes gêneros cinematográficos de uma só vez, iremos promover o diálogo entre autores como Elena Del Río, para trabalhar o conceito de eventos afetivos-expressivos, e Eugenie Brinkema com sua proposta de entender o afeto como forma e não apenas como intensidade. Para discutir sobre as noções de Cinema Impuro e Intermidialidade trazemos as reflexões de Lúcia Nagib, juntamente com os estudos sobre gêneros cinematográficos desenvolvidos por Rick Altman.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: British Fim Institute, 2000.

BRINKEMA, Eugenie. The Forms of Affects. Duhman and London: Duke University Press, 2014.

DEL RIO. Elena. Deleuze and the cinemas of performance. Powers of affection. Edinburg: Edinburg University Press, 2008.

NAGIB, Lucia. Impure Cinema: Intermedial and Intercultural approaches to film. London and New York: I.B.Tauris & Co. Ltd, 2013.