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  Título
O documentário alagoano contemporâneo e a figura do sujeito comum
Autor
Leandro Alves da Silva
Resumo Expandido
Durante os anos 70 e 80, Alagoas apresentava um ciclo de produção de curtas-metragens em Super-8, impulsionado pelo Festival Nacional de Cinema de Penedo, cidade às margens do rio São Francisco. Com o fim do festival, o Estado passou por uma escassez na produção audiovisual. De acordo com Holanda (2008), somente quatro documentários foram registrados entre 1993 e 2003. A partir de 2003, o governo federal implanta uma política de cultura e de fomento ao audiovisual, junto a outros fatores que contribuíram para o crescimento dessa produção no Brasil e, consequentemente, Alagoas: o barateamento dos equipamentos de filmagens, som e a edição não-linear, criações de festivais de cinema e o surgimento de oficinas de formação audiovisuais.

Cabe destacar a importância das oficinas de produção audiovisual na produção alagoana. Apenas o SESC Alagoas, entre os anos de 2009 e 2016, produziu 24 documentários através de minicursos e oficinas de formação audiovisual. Já o grupo Saudáveis Subversivos, com o projeto Olhar Circular, realizou em 2008 sete curtas. Outras instituições públicas como a UFAL, com cursos de extensão ligados ao cinema, também contribuíram com produções.

Claro que as produções audiovisuais alagoanas não se restringiram apenas por meio desse tipo de atividades, mas é fato que elas contribuíram para o crescimento quantitativo do audiovisual no Estado e para inserção, no cinema, de jovens e comunidades de classes sociais mais baixas, fato confirmado com o público-alvo das oficinas do Olhar Circular e do SESC.

O objeto de estudo desse trabalho são os documentários realizados através dessas oficinas. Para isso fez-se necessária uma incursão empírica inicial, de pré-análise qualitativa dessas obras. Os filmes alagoanos investigados apresentam uma certa similaridade com o documentário brasileiro contemporâneo, para Lins e Mesquita (2008) esses filmes apresentam um recorte mínimo nos temas abordados, ao invés de situações sociais mais amplas, se relacionam com experiências sociais demarcadas, com valor mais no “registro” das personagens e no trato respeitoso com elas. Apesar da maioria das obras alagoanas não apresentarem técnica apurada e novidades na linguagem cinematográfica, é importante ressaltar como os personagens são tratados dentro das narrativas, principalmente nos filmes centrados em apenas um personagem. Fato é que a figura dos sujeitos comuns se destaca em diversos documentários. A exposição desses personagens é tratada de maneira respeitosa sem elevá-los ao ridículo ou exaltação, há um certo limite ético nessa relação entre entrevistado e entrevistador.

No documentário O Velho e a Lagoa, realizado pelo Ateliê Sesc de Cinema de 2009, é contada a história do Mestre Moreira, homem simples que vive sozinho em uma casa na beira da Lagoa Mundaú, mostrando seus afazeres, suas plantações ao redor da casa e de como ele chegou e vive ali. O curta tem um certo foco na questão ambiental, dando ênfase em como o Mestre Moreira tenta preservar a Lagoa Mundaú que é bombardeada por lixo vindo de todas as partes. O personagem do filme é um sujeito comum, sendo apresentado sem espetacularização. Abordagem semelhante ao modo como o personagem do curta Anda, Zé Pequeno, Anda, realizado pela oficina Olhar Circular de 2008, é apresentado. O filme conta a história de um pescador da Ilha de Santa Rita, que entre outras proezas foi de Marechal Deodoro ao Rio de Janeiro a pé. Outro ponto semelhante com O Velho e a Lagoa é a abordagem ambiental, Zé Pequeno também vive sozinho, morando ao lado da lagoa tratando a natureza com muito respeito e preocupação com a poluição ambiental.

Esses dois documentários fazem parte de um acervo considerável de filmes feitos a partir de oficinas de formação audiovisual em Alagoas. O presente trabalho analisa a maneira como o olhar dos jovens oriundos dessas oficinas audiovisuais enxergam o sujeito comum e como eles transmitem isso para o público através dos filmes.
Bibliografia

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MARSON, Melina Izar. Cinema e Políticas de Estado: da Embrafilmes à Ancine. São Paulo: Escrituras Editora, 2009.

NICHOLLS, Bill. Introdução ao documentário. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 2005.