Voltar para a lista
 
  Título
Odeon ao vivo: tradição e inovação num cinema de rua carioca
Autor
Wilson Oliveira da Silva Filho
Coautor
Márcia Bessa (Márcia C. S. Sousa)
Resumo Expandido
O Odeon/Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro (1926/2015) é um dos últimos grandes cinemas de rua – salas de espetáculos cinematográficos cuja localização privilegia as calçadas urbanas – brasileiros que permanecem em funcionamento e trabalhando em regime de sala única. Apesar de ter sofrido modificações em sua estrutura física e lotação, acréscimo de serviços e espaço de convivência, ameaças de fechamento definitivo e de transformação em templo religioso, o Cine Odeon/CCLSR sempre funcionou como cinema e ocupou o mesmo ponto físico desde sua inauguração na Cinelândia carioca. O processo de restauração e reforma do Odeon tornou-se um grande legado para as ações de preservação de espaços públicos de exibição cinematográfica nas ruas do Rio de Janeiro. Os apoios da BR Distribuidora, do Festival do Rio (Grupo Estação), Grupo Severiano Ribeiro e da Prefeitura do Rio de Janeiro foram fundamentais na reabertura e funcionamento do cinema.

A capital fluminense já contou mais de cento e setenta (1955) salas de exibição cinematográfica em atividade nas calçadas de suas vias públicas (GONZAGA, 1996). Hoje, damos conta da existência de somente sete cinemas de rua na cidade. A conjuntura crítica que marcou a época em que os cinemas de rua começaram a desaparecer por aqui configurou uma crise estrutural. A partir dos anos 1980, o parque exibidor carioca (e brasileiro) sofreria a maior modificação desde os primórdios de sua existência: a migração das salas de cinema para o interior de shopping centers (e a ausência de cinemas na maioria dos municípios de médio e pequeno porte). Nem a simplificação das salas, a divisão de seus espaços internos, as inovações tecnológicas constantes, os fechamentos e as outras formas de utilização das salas poderiam prever que o cinema sairia das ruas.

O Odeon/CCLSR, como um dos poucos cinemas ainda em funcionamento nas ruas cariocas (e brasileiras), ampara-nos numa análise mais específica das estratégias para permanência dessas salas no espaço urbano e na investigação de novas possibilidades de existência para que outros cinemas de rua (re) surjam. Entre debates, cursos e palestras, pré-estreias, pocket-shows, festivais e mostras e eventos corporativos, o Odeon/CCLSR abriu (e abre) espaço ainda para sessões de cinema ao vivo – modalidade audiovisual em que o performer ou Vj (Visual Jockey) cria ou recria visualidades e sonoridades em tempo real, atestando uma nova relação de presença para com o espectador. Em 2007, no Festival do Rio ocorreu a primeira Mostra Live Cinema – organizada por Luiz duVa e Marcia Derraik. Quase oito anos depois dessa primeira experiência, a mostra trouxe ao público carioca a performance Lumière II (Robert Henke, agosto/2015); fundindo projeções a laser com sonoridades eletrônicas. Na tela do Cine Odeon novos desenhos, linhas e cores acompanhados de sons e da presença do próprio Henke mostram como um cinema em diálogo com a tecnologia pode ter na sala de cinema tradicional um novo registro.

Se o hábito cinema (MACIEL, 2009) cristalizou-se como afirmação de uma cultura dominante, disseminando pelo mundo inteiro um modelo clássico-narrativo; hoje em dia antigos ambientes de exibição cinematográfica dialogam com novas práticas A/v, como as projeções ao vivo. O Odeon/CCLSR conjuga a tradição do cinema nas calçadas da Cinelândia com manifestações tecnológicas e em rede da arte contemporânea, sendo um espaço de crítica e criação sobre o atual papel da sala de cinema. Nesses termos, pretendemos investigar (ou ao menos sugerir) como manifestações live convivem e fazem viver novas experiências cinemáticas. Atentamos ainda para a importância de um cinema de rua sobrevivente estar antenado e conectado a novas manifestações do audiovisual na contemporaneidade.
Bibliografia

ALMEIDA, Paulo S.; BUTCHER, Pedro. Cinema, desenvolvimento e mercado. RJ: Aeroplano, 2003.

CINEMAS, Nº 47, agosto, 1986. In: ___. Filme Cultura: edição fac-similar 43-48. RJ: Ministério da Cultura, CTAv, 2010. p. 433-564.



GONZAGA, Alice. Palácios e poeiras. RJ: Record, 1996.

LUCA, L. G. A. O futuro do cinema. Filme Cultura - Vanguarda e inovação, n. 54, maio/2011, RJ: CTAv/SAV/MinC. p. 19-22.



VIEIRA. João Luiz; PEREIRA, Margareth C. S. Espaços do sonho: cinema e arquitetura dos cinemas no Rio de Janeiro 1920-1950. Embrafilme/Cinetema. RJ, 1982.



DOUGLAS, Stan; EAMON, Christopher (Eds.). Art of projection. Ostfieldern: HatjeCantz, 2009.



MACIEL, Kátia (Org.). Transcinemas. RJ: Contracapa: 2009.



MAKELA. Mia. Practice of live cinema. 2006. In: http://www.miamakela.net/TEXT/text_ PracticeOfLiveCinema.pdf. Acesso em: 18 jan. 2014.



MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. SP: Cultrix, 1964.



SPINRAD, Paul. The vj book. New York: Paperback, 2008.