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  Título
O corpo partido: conformações no cinema brasileiro recente
Autor
Raul Lemos Arthuso
Resumo Expandido
Nesta última década, ocorreu uma irrupção de questões envolvendo fraturas históricas da sociedade brasileira. Uma delas é a diferença de gêneros, suas possibilidades plásticas e os papéis que os corpos femininos e masculinos ocupam e podem ocupar na sociedade. Por outro lado, há uma trajetória desta discussão na história do cinema brasileiro, desde as configurações da sociedade rural tornando-se urbana nos filmes de Humberto Mauro, passando pela plasticidade corpóreo-sexual do cinema marginal e seu contraponto nas comédias eróticas dos anos 1970. Se a representação dos corpos e sua identidade em formas fílmicas tem uma longa história, a novidade no cinema brasileiro recente está no dissenso, na impossibilidade de amenizar as formalizações programadas historicamente do corpo – a “pedagogia do corpo”, que Foucault discute em Vigiar e Punir, como normatização do corpo humano, matéria física a ser disciplinada socialmente. Este trabalho, então, abordará dois filmes nos quais as relações entre masculino e feminino estão em jogo, porém com maneiras radicalmente opostas de retratar as questões: Se Eu Fosse Você (Daniel Filho, 2006) e Filme de Aborto (Lincoln Péricles, 2016).



Em Filme de Aborto (Lincoln Péricles, 2016), um casal de jovens da classe trabalhadora tem uma gravidez indesejada. Eles recorrerão ao aborto. Porém, quem está esperando o bebê é o rapaz. O filme discute a questão do corpo invertendo, em sua fábula, os papéis biológicos, apontando para a discriminação feminina e os privilégios dos homens numa sociedade machista e fascista no que tange ao corpo do outro. Mas não apenas na fábula: o filme desassocia imagem e som, fraturando o discurso de seu emissor. Mais que isso, o filme se apropria de materiais de YouTube, músicas e um filme de Charles Chaplin, subvertendo seus sentidos, discutindo a propriedade do discurso, do corpo e da arte. Estes corpos “dissensiados” de Filme de Aborto, por outro lado, são excessivamente formalizados, estáticos, demarcando uma cisão profunda entre os gêneros, seus papéis sociais, expectativas, desejos que refletem – esta é a hipótese – engajamentos de representação de alteridades impossíveis em pauta na sociedade brasileira contemporânea. Assim, não apenas o aborto está em discussão, mas representações do outro, plasticidades corpóreas e diálogos entre as diferenças estão abortadas no jogo de encenação completamente fossilizado dos atores.



A inversão a partir do corpo é a base, também, de Se Eu Fosse Você (Daniel Filho, 2006) ao colocar, em forma de comédia de costumes, a relação de alteridade entre homem e mulher. A formulação da troca de identidades e corpos é interessante como problemática afirmativa no seio da indústria cultural. Contudo, o conflito é amenizado, reproduzindo chavões com sinal invertido: o marido no papel da esposa não sabe andar de salto, gerir os problemas de intimidade dos filhos, administrar as tarefas domésticas; a mulher não joga futebol, não sabe lidar com mulheres no trabalho, dar conselhos “de macho”, nem gerir os negócios empresariais. Ou seja, um problema de gestão do universo do outro. Por sua vez, os corpos de Tony Ramos e Glória Pires concentram uma energia, na tentativa de pôr-em-cena a identidade do outro encarnado em si, mais flexível, plástica, orgânica. A plasticidades dos dois atores em cena problematiza o estatuto do corpo dentro do ideário da gestão da vida consumista do Brasil contemporâneo no seio de sua instituição mais sólida – a família – ao dar a ver a possibilidade do corpo estável desestabilizado por outras identidades orgânicas, algo que o filme de Lincoln Péricles, em sua encenação por assim dizer “inorgânica”, toma como impossível de partida. Evidentemente, como produto central da indústria cultural no Brasil recente, a afirmação moralista de Se Eu Fosse Você é a do equilíbrio conciliatório, com homens e mulheres em seus lugares, uma compreensão que suspende discussões mais polêmicas sobre corpo, gênero e identidades.
Bibliografia

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COSTA, Jurandir Freire. “Notas sobre a cultura somática” in: O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.



EDUARDO, Cléber. “Subjetividade: modo ou moda?”. In: Cinema brasileiro anos 2000, 10 questões [catálogo]. São Paulo: Centro Cultural Banco do Brasil, 2011, p. 44-47.



FOSTER, Hal. O retorno do real. São Paulo: Cosac Naify, 2014.



FOUCAULT, Michel. Surveiller et punir. Paris: Gallimard, 1975.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34, 2009. 2ª ed.



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