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  Título
Notas Flanantes: por uma estética do fragmento no audiovisual contempo
Autor
osmar gonçalves dos reis filho
Resumo Expandido
Desde as bienais de Veneza de 1999 e 2001, é possível identificar uma série de cineastas e artistas visuais que tem experimentado com obras curtas, breves, com filmes reduzidos ao mínimo, compostos por poucos planos, por pequenos fragmentos de imagem arrancados ao fluxo da vida – trabalhos de tal pureza e simplicidade que nos lembram um haicai. Artistas-cineastas como Ange Leccia, Rineke Dijkstra, Cao Guimarães, Marcellvs L., Abbas Kiarostami e Pedro Costa tem trabalhado com essas pequenas formas, apostando numa estética do fragmento, da sutileza e da concisão.

Em geral, essas obras nos apresentam apenas uma situação privilegiada, micronarrativas que não contam propriamente uma história nem instituem relações de causa e efeito, mas constituem antes pequenos “atrações” fugidias, pequenos blocos de espaço-tempo tomados da natureza ou “roubados” da realidade pelo olhar atrevido de um cineasta voyeur. De fato, eles afirmam um olhar distanciado e minimalista, um olhar rigorosamente descritivo, que parece recusar a história em benefício do “simples acidente”, do simples fluir da vida.

Nesses filmes e instalações, é possível entrever a emergência de um cinema incompleto e lacunar, um cinema fragmentário, que abdica da narrativa e da ficção para mergulhar no cotidiano e acolher o imponderável da vida. Trata-se, de um lado, de um retorno ao aberto e ao mundo, da confiança num cinema “espontâneo” capaz de capturar diretamente da vida. De outro, o que parece estar em jogo é a aposta na força poética das imagens, na sua capacidade de nos “revelar o mundo” (Bazin), de nos devolver “a fisionomia das coisas” (Balázs), elaborando acontecimentos estéticos de grande potência.

Ora, sob nosso ponto de vista, essa inflexão estética só se tornou possível graças, em parte, ao processo de miniaturização dos aparelhos de captação de imagem que, a partir do digital, transformou a câmera num instrumento de bolso, um aparato realmente leve e maleável, que carregamos conosco o tempo todo e que passa a funcionar praticamente como um bloco de notas. Para realizadores como Guimarães, Kiarostami e Costa, o cinema se confunde hoje com esse gesto solitário da escrita e da observação do mundo. Filmar passa a ser agora uma prática solitária, próxima da poesia ou da pintura, uma prática cotidiana, freqüentemente concisa e fragmentária, algo como “tomar notas”.

“O cinema para mim”, diz Guimarães, “nasceu deste pequeno exercício diário de observação solitária do mundo. Uma espécie de anotação cotidiana para nada, um diário despretensioso”. Kiarostami, por sua vez, destaca a capacidade da câmera digital de estabelecer uma relação mais direta e imediata com o mundo, de trazer de volta para o cinema algo que há muito estava perdido – um senso de imediatismo e realidade. Em seus escritos, o cineasta iraniano enfatiza essa possibilidade de retorno às coisas mesmas, retorno à própria vida, para além do roteiro, de uma construção dramática e/ou narrativa. O digital, nos diz Kiarostami, permite fazer filmes que “não são construídos, mas sim pescados” – filmes que se apresentam como pequenos “mundos interrompidos”, pequenos “pedaços de vida” arrancados ao fluxo das coisas.

Aqui, como se vê, estamos nas antípodas do cineasta demiurgo, de uma concepção de cinema como criação e controle de um universo artificial. Estamos diante de um cinema menor (Deleuze), fragmentário e minimalista. Um cinema que se afirma, antes de tudo, como uma arte do olhar, uma expressão (áudio)visual liberada daquela obsessão de contar e/ou de dar sentido ao mundo.

Nesse trabalho, gostaríamos de pensar o que leva uma série de realizadores a trabalhar hoje com essas pequenas formas? O que estaria em jogo nesse movimento de redução minimalista, nessa “nova simplicidade”? Nosso intuito aqui é investigar as dimensões estéticas, éticas e políticas desse processo a partir de um diálogo com a obra Ventania (2016), do realizador cearense Igor Câmara.
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