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  Título
A invenção do comum: Estratégias de montagem em Era o Hotel Cambridge
Autor
LUÍS FELIPE FLORES
Resumo Expandido
As ocupações por moradia nas cidades constituem um mote relativamente recente no cinema brasileiro, cujo marco remonta talvez ao filme À margem do concreto (Evaldo Mocarzel, 2006). São obras destinadas, via de regra, à ação política imediata, seja pelo aumento na visibilidade dos lugares e sujeitos filmados, seja pela tentativa de afirmação das identidades coletivas para combater o apagamento sistemático dos grupos minoritários na mídia hegemônica. Uma tendência que encontra, no presente, diferentes atualizações em obras de “ativismo direto”, desde Ressurgentes (Dacia Ibiapina, 2014) e Vozerio (Vladimir Seixas, 2015), até documentários realizados “de dentro” ou “ao lado” das ocupações, caso de Acabou a paz, isto aqui vai virar o Chile! (2015), de Na missão com Kadu (2016), além de vídeos com menor circulação, realizados pelos próprios ocupantes.

Era o Hotel Cambridge (Eliane Caffé, 2016) – que aborda uma ocupação da Frente de Luta por Moradia no centro de São Paulo, em um antigo hotel abandonado – efetua um duplo movimento, de aproximação e distanciamento, em relação às experiências anteriores do cinema em contato com as ocupações. Por um lado, mantém-se o desejo de documentar, de registrar, de reter o máximo possível dos elementos sensíveis deixados por esses corpos e vozes cuja permanência naquele espaço está condicionada ao tempo da luta (que se faz, acima de tudo, urgente, movida pelas instabilidades decorrentes do descaso oficial e da repressão policial-governamental). Por outro lado, no cerne desse registro estritamente documental, o filme forja um núcleo ficcional cujos elementos constituintes, uma vez ativados, encontram desdobramentos indeterminados ao longo do fluxo fílmico.

Esse dispositivo híbrido, que permite ver e inventar filmicamente as vidas possíveis da ocupação Hotel Cambridge, resulta em uma mise en scène marcada pelo acolhimento dos pontos de vista distintos que perpassam, mesmo que potencialmente, as fronteiras instáveis daquele espaço. Um espaço, vale dizer, real e simbólico, estético e político, pois se o edifício ocupado é a zona de ação política na qual os indivíduos marginalizados podem coexistir com suas diferenças, Era o Hotel Cambridge faz convergir, no limiar de um mesmo “território cinematográfico”, todo um conjunto de multiplicidades concretas, das origens geopolíticas aos lugares de gênero ou classe.

É preciso, no entanto, combinar os fragmentos mosaicos captados no universo filmado de modo a passar do documentário à ficção sem suprimir as possibilidades de interrupção, de ruptura estético-política. Fazer com que as imagens singulares durem (isto é, transbordem) para além dos pressupostos comunicacionais, das fronteiras de espaço e de tempo, estejam estas inscritas no dispositivo ou no próprio espectador. A montagem será, nesse sentido, o principal procedimento utilizado para agenciar as perspectivas recolhidas e fabricar, entre elas, uma figura comunitária que preserve as distâncias da alteridade necessárias à confrontação do espectador. A combinação de diferentes tipos de registro e linhas de ação – como grupos teatrais, conversas por skype e reuniões políticas – fornece uma imagem complexa, na qual as dimesões do plural e do singular se manifestam com certa reciprocidade em meio ao turbilhão do real. Ademais, privilegia-se determinado tipo de visibilidade marcada mais pela busca narrativa da empatia (GONÇALO, 2017) do que pela crença na informação.

Esta comunicação pretende investigar de que modo as operações de montagem de Era o Hotel Cambridge, devidamente fundamentadas em certo esquema de encenação, contribuem para a re-contrução de um olhar – logo, de uma cena – em comum, capaz de ultrapassar as fronteiras identitárias – tanto interiores quanto exteriores – de uma ocupação em particular, ao mesmo tempo em que tornam visíveis algumas das singularidades irredutíveis que atravessam a superfície do coletivo.
Bibliografia

BRUM, Eliane. “Veja o filme, leia o livro, alcance a vida”. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/20/opinion/1490015804_432739.html



COMOLLI, Jean-Louis. “Os homens ordinários. A ficção documentária”. In: O comum e a experiência da linguagem. GUIMARÃES, C.; OTTE, G.; SEDLMAYER, S. (Orgs.). BH: UFMG, 2007.



GONÇALO, Pablo. “Como ocupar uma abstração?”. Disponível em: http://revistacinetica.com.br/nova/como-ocupar-uma-abstracao/



RANCIÈRE, Jacques. Aisthesis – scènes du regime esthetique de l’art. Paris: Galilée, 2011.



__________________. A partilha do sensível – estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.