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  Título
Montagem e sobrevivência: os arquivos em Retratos de Identificação
Autor
Letícia Marotta Pedersoli de Oliveira
Resumo Expandido
Os arquivos estão sendo esquecidos, apagados – ao mesmo tempo que são latentes, potentes e vivos – na urgência da espera de serem encontrados. Nesse trabalho, propomos através do filme Retratos de Identificação, analisar como o cinema se mostra como um dispositivo relevante na reconstituição do passado a partir do presente pelo uso dos arquivos, e que, através da montagem cinematográfica, pode trabalhar como um mediador de temporalidades descontínuas. Como o documentário de Anita Leandro nos convoca, como testemunhas e espectadores, a partilhar este passado histórico comum, a ditadura militar, pela experiência cinematográfica?

No documentário, a diretora nos apresenta fotografias que foram encontradas nos acervos fotográficos das agências de repressão da ditadura, como SNI (Arquivo Nacional), Superior Tribunal Militar e os arquivos do DOPS /Guanabara no Rio de Janeiro. Na narrativa fílmica, as fotografias e documentos históricos resgatados desse arquivo foram entrelaçados com as narrativas orais dos sobreviventes no presente. Na perspectiva benjaminiana, podemos considerar esses dois tempos distintos como um choque, uma tensão provocada pela relação que a continuidade cinematográfica propõe, abrindo possibilidades de aberturas na história oficial através das narrativas. A emergência de informações contidas nas fotos, segundo Leandro, “trouxe à tona a história de um assassinato durante interrogatório, ainda sem julgamento, e de um suicídio decorrente de sequelas da tortura e de perseguições ocorridas no exílio” (2015, p.7). Há no filme um senso de dever mnemônico, onde o cinema, como dispositivo, participa de um processo ainda necessário e atual de se fazer uma memória para uma história cheia de lacunas e vazios.

Partindo do pressuposto de Benjamin (2012), articular o passado, não é conhece-lo tal como foi, mas apropriar-se de uma reminiscência, como ela relampeja no momento de perigo. O passado só se deixa capturar como imagem que relampeja irreversivelmente no momento de sua conhecibilidade. Assim, no documentário, há uma emergência desses arquivos que foram descobertos no presente. São vestígios imagéticos que se tornaram legíveis neste momento histórico, acendendo sua correspondência com o passado. É através do dispositivo do cinema no presente que um corte temporal é feito na história, convocando os personagens a rememorar com o espectador a partir dos rastros visíveis.

Segundo Gagnebin (2012), a temporalidade que constitui o rastro se forma justamente pela fragilidade do aviso que nele se condensa. Pela fagulha do passado que há no interior de cada rastro, sempre em vias de desaparecer, podemos tocar à luz daquilo que já se perdeu através do presente, uma imagem do futuro. A reivindicação da rememoração do passado, para Benjamin, não implica somente em uma restauração, mas, por sua abertura e incompletude, significaria também uma transformação no próprio presente. A restauração da origem benjaminiana (O Ursprung) designa a origem como um salto (Sprung), para fora de uma sucessão cronológica do tempo (GAGNEBIN, 2011).

Nesse sentido, o documentário Retratos de Identificação propõe através da montagem, na justaposição de arquivos, uma possibilidade de narração de uma outra história, expondo as descontinuidades e lacunas existentes. Ou seja, trata-se de pensar os arquivos mais como um processo de pensamento do que reduzi-lo apenas a um elemento técnico. A partir da historiografia de Benjamin, contudo, podemos pensar sobre como, no documentário, a montagem se coloca como uma possível invenção da memória a partir desses restos. O que significa fazer um filme a partir de um material de arquivo?

É esse paralelo entre as imagens, sempre descontínuo, que a montagem propõe, que descobrimos as marcas do tempo, em que os arquivos acrescentariam ainda outros sentidos a cada imagem, estabelecendo outras sobreposições temporais e, portanto, outras visibilidades.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Obras Escolhidas v.1)



GANEGBIN, Jeanne Marie. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.



__________. Apagar os rastros, recolher os restos. Walter Benjamin. Rastro, aura e história. Org. Sabrina Sedlmayer, Jaime Ginzburg. Belo Horizonte: UFMG, 2012.



LEANDRO, Anita. Montagem e história. Uma arqueologia das imagens da repressão. Anais da Compós – 24 ̊ Encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade de Brasília, 2015.



LINS, Consuelo e CURSINO, Adriana. O tempo do olhar: arquivo em documentários de observação e autobiográficos. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 9, n. 17, jan./jun. 2010.