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  Título
Formas de variação do antecampo nas imagens insurgentes
Autor
Paula Kimo
Resumo Expandido
Discutindo os modos como a vida se modula na imagem André Brasil encontra na exposição do antecampo um traço da sua dimensão performativa no cinema, algo que envolve a relação entre o corpo que filma e os corpos filmados. Na manifestação do antecampo os espaços que compõem o cinema - campo e fora-de-campo – participam do mesmo jogo de forças que compõe a mise-en-scène fílmica. Para o autor o antecampo é “um lugar - marginal, mas constituinte – de permeabilidade entre o real e a representação” (BRASIL, 2013, p. 579). Na exposição do antecampo o regime clássico de representação oscila, titubeia numa fronteira porosa que separa, mas também vincula, campo e fora-de-campo. Quando o realizador, sua equipe e o aparato cinematográfico - tudo aquilo que geralmente está atrás da câmera - adentram a cena, por um lado passam a compor a representação assumindo ou conformando um lugar de também personagens e elementos cênicos, por outro operam uma abertura no campo da representação que passa a abarcar a relação entre quem filma e quem é filmado. Nessa medida o antecampo é um espaço de diálogo, de negociação, de interpenetração, de posicionamento do realizador no interior da obra.



Ao pensarmos nas imagens insurgentes, da ordem da disputa, produzidas em acontecimentos políticos contemporâneos no Brasil e no mundo, a exposição do antecampo torna visível o posicionamento do sujeito que filma e o campo de forças que se conforma no momento da tomada. Ao analisar o comportamento do antecampo é possível acessar o sujeito político que está ante a câmera e perceber os sentidos que estão em jogo quando a gênese das imagens se dá num território em disputa e quando a própria imagem se torna domínio de disputa. Por meio dos gestos, vestígios e projeções que o antecampo inscreve na imagem, é possível analisar as diferidas formas de ocupação desse espaço nas imagens que apontam, por um lado, o dano social e, por outro, claros desejos de intervenção no real. A maneira como a imagem desestabiliza o regime de representação indica tais variações do antecampo e nesse processo é possível tanto elaborar formas de variação pertinentes ao embate físico e político próprio ao acontecimento filmado, quanto formular variações que não necessariamente são constituídas em processos de enfrentamento direto.



Nas imagens insurgentes, o antecampo será, então, um espaço, uma região, uma situação, um lugar, variável conforme a ocupação dos sujeitos, oscilante em relação ao campo e ao fora-de-campo. Ele não é apenas a presença de um sujeito real que filma e se relaciona, tampouco o aparato técnico que se expõe. Ele é um espaço móvel, relacional, virtual, poroso, ocupado e manifesto de diferentes formas, submetido às circunstâncias e riscos do momento da gênese da imagem, emancipatório na tomada de posição política do sujeito que filma diante do contexto filmado. Para lidar com o antecampo enquanto espaço que dá a ver a disputa em jogo no momento da tomada das imagens insurgentes, iremos analisar o curta-metragem "Na missão, com Kadu", de 2016, dirigido por Aiano Benfica, Kadu Freitas e Pedro Maia. Ademais, serão acionadas três figuras de análise, a saber: o corpo-câmera, as formas de convocação do Outro e os movimentos de ação e retração pertinentes à produção da imagem em contextos de disputa. Ao olhar para as imagens insurgentes vemos essas figuras imbricadas, imiscuídas na materialidade fílmica, mas também podemos percebê-las como camadas que reforçam ou até mesmo compelem a exposição do antecampo na imagem.
Bibliografia

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BAZIN, André. O que é o cinema? São Paulo: Cosac Naify, 2014.

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