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  Título
Robert Smithson e o "modelo" do cinema
Autor
Patrícia Mourão
Resumo Expandido
Desde a publicação, em meados dos anos 1990, de uma reunião de textos de Robert Smithson, tornou-se um consenso no meio das artes que a contribuição do artista – equiparável talvez apenas a de Andy Warhol – para o pós modernismo reside em seus escritos e projetos não desenvolvidos tanto quanto em suas obras de land art. Nestes textos e obras, encontramos uma pulsão a empurrar as artes visuais, seus meios, modos e abordagens, para além de seus horizontes habituais e tradicionais em direção a um fora, um outro que deve permanecer irredutível – uma energia que, ainda hoje, propulsiona boa parte da produção contemporânea.

Depois da reunião desses textos, vários autores chamaram a atenção para a pluralidade de modelos extrínsecos ao purismo do modernismo encontrados no trabalho de Smithson, em especial aqueles baseados na fotografia, no diagrama, na alegoria e na manipulação da língua e da linguagem. No entanto, à exceção de algumas consideráveis análises de seu filme, Spiral Jetty (1971), pouco se escreveu sobre a relação de Smithson com o cinema de forma mais abrangente. Isso surpreende não só porque a artista dedicou dois assombrosos textos ao cinema – Spiral Jetty e A Cinematic Atopia, o primeiro completando a tríade com a escultura e o filme homônimos, e o segundo sobre o projeto de um sala de cinema –, mas também porque, além de ter deixado alguns esboços e diagramas com projetos de filmes inacabados, em praticamente todos os seus textos proliferam referências ao cinema: à ficção científica, ao filme b, a salas de cinema e à situação do espectador, à película e ao fotograma – várias delas em comparações com conceitos caros a sua obra e pensamento, tais como a entropia, o "nonsite", e o anti-monumento.

É, por exemplo, invocando o cinema, que Smithson exemplificará pela primeira vez a ideia de entropia em A tour of Monuments of Passaic, New Jersey, um de seus primeiros trabalhos em forma de texto a receber atenção crítica: A tour of Monuments of Passaic, New Jersey. Perto do fim do texto, ele escreve que o filme, na medida em que se permite ser rebobinado, poderia ter a capacidade de reverter o tempo, de retornar a energia ao seu estado de origem. Mas, em um movimento de desenraizamento e desestabilização dos pressupostos que sempre lhe foi próprio, ele termina afirmando que, por outro lado, o filme enquanto matéria também está fadado a desbotar e entortar: entrar, ele próprio, em um processo entrópico. Em outro momento, a experiência do espectador do cinema, tomada como uma experiência a-corpórea e mental, passa a ser a realização perfeita, ou a imagem por excelência, do "nonsite": uma referência a um alhures que nunca pode ser de fato visitado. O "nonsite", como o cinema, constituí a experiência do “outro lugar”, uma atopia.

Pretende-se aqui, revisitando os textos de Smithson, mapear as irrupções no cinema em sua produção escrita. Espera-se a partir desse primeiro movimento, abordar o cinema como um objeto teórico, um modelo de pensamento a partir do qual o artista entende e ordena a própria prática.
Bibliografia

Cooke, L; Kelly, K. (orgs). Robert Smithson: The Spiral Jetty. New York: Dia Center for the Arts with the University of California Press, 2005.

Flam, Jack. Robert Smithson: The Collected Writings. University of California Press, 1996.

Roberts, Jennifer L. Mirror Travels: Robert Smithon and History. New Haven Conn: Yale University Press, 2004

Reynolds, Anne. Robert Smithson: Learning from New Jersey and Elsewhere. Cambridge, Massachussets, MIT, 2003

Schmidt, Eva. “Et in Utah: Robert Smithson ‘Enthropologic’ Cinema". In" Robert Smithson: Zeichnungen aus dem Nachlab _ drawings from the Estate. Munster: 1989.

Uroskie, Andrew V. La Jetée en Spirale: Robert Smithson's Stratigraphic Cinema. In: Grey Room, nº 19. Spring 2005, p 54-79.