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  Título
Corumbiara: relações entre o documentário, o ensaio e o mundo.
Autor
Fabiana de Oliveira Assis
Resumo Expandido
Ao escrever sobre Martírio (2016), o mais recente filme de Vincent Carelli, Eduardo Escorel aponta para a dificuldade do documentário em conciliar a necessidade de ser uma expressão artística e de cumprir uma função utilitária e diz que em Corumbiara, “Carelli, sem dúvida, realiza essa façanha”. Se essa “façanha” é alcançada por Carelli, acredito que ela se dá justamente pelo fato de que o diretor lança mão de recursos ensaísticos para a constituição da sua obra ao abordar um tema tão duro como a situação dos povos indígenas brasileiro, no caso, os sobreviventes de um massacre produzido por fazendeiros na região do Rio Corumbiara, ao Sul de Rondônia.







É fato que Corumbiara toca em uma ferida aberta do país e que ainda há muito a se discutir sobre isso. No entanto, interessa aqui a forma como Carelli constroi uma narrativa permeada por inflexões ensaísticas acrescentando camadas de pensamento, fazendo com que o filme esteja assim próximo do que foi definido por Elinaldo Teixeira como um dos aspectos que caracterizam o ensaio fílmico: a sua capacidade tirar do cinema uma função a que este, por muito tempo, esteve assimilado, a do ato de contar histórias.



Ao alternar a tragédia daquele povo com fatores da sua vida pessoal, o diretor consegue fugir do caráter estritamente politico-ativista que documentários etnográficos podem estar fadados e eleva-o a um outro patamar, o de filmes que vão além do registro como documento, fazendo com o que o espectador se aproxime e se reconheça como parte do problema partilhado no filme através da narração em primeira pessoa do diretor.



Outro fato que desperta a atenção em Corumbiara e que também se trata de um recurso geralmente utilizado por ensaístas do cinema é a inserção de imagens de arquivo, no caso feitas por Carelli ao longo de sua vida como indigenista. O filme nasce porque imagens foram produzidas anteriormente a favor de uma outra intenção, a de provar para autoridades a existência dos índios naquela região, é como se o diretor descobrisse que apenas mostrar a verdade de que ali extistiam índios não mais bastasse. A necessidade diante da dramacidade que tais imagens mostravam seria outra, a de serem questionadas sobre o seu valor e significado para o mundo.



Analisar o uso da narração em primeira pessoa e das imagens de arquivo neste filme é o ponto de partida que uso para buscar entender como o documentário no Brasil vem rompendo com a narrativa documental clássica e situando-se no lugar de obra aberta, em que histórias e documentaristas se afetam mutuamente, efeito esse, que exposto na tela irá por sua vez afetar o espectador e a sua forma de refletir sobre o mundo.
Bibliografia

CORRIGAN, Timothy. O Filme-ensaio. Desde Montaigne e Depois de Marker. Campinas: Papirus, 2011.

ESCOREL, Eduardo. Martírio – Militância e Arte. Em: . Acesso em: 02 abril 2017.

LINS, Consuelo; MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

MACHADO, Arlindo. O Filme-ensaio. Em: . Acesso em: 02 abril 2017

TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Cinemas “Não Narrativos. Experimental e Documentário – Passagens. São Paulo: Alameda, 2012.

________________________ . (org.) O Ensaio no Cinema. Formação de um Quarto Domínio das Imagens na Cultura Audiovisual Contemporânea. São Paulo: Hucitec, 2015.

________________________ . (org.) Documentário no Brasil.Tradição e Transformação. 2a edição. São Paulo: Summus, 2006.