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  Título
Corpo e plasticidade do gesto no cinema de animação
Autor
Christiane Quaresma Medeiros
Resumo Expandido
A utopia está na base da representação do corpo na cultura ocidental. A partir dela, o corpo foi idealizado para além de sua própria corporeidade. É preciso observar que tal empreendimento não se elabora apenas na cultura visual, mas em diversas outras instâncias do pensamento, que mediam nossa experiência com o corpo. Foucault (2013) nos lembra, assim, do mito da alma, e como este cumpre negar a topologia do corpo. Assim seria com utopias de outras naturezas: das fadas, dos gênios, dos mágicos (FOUCAULT, 2013, p. 8), que evidenciam as faltas que o corpo real suscita, em sua natural fragilidade e mortalidade. A representação do corpo na cultura visual não está desvinculada destas utopias. No entanto, o espaço da representação imagética não se configura apenas como espelho de mitos e desejos já previamente configurados, ele também é palco de atualizações e reelaborações, muitas vezes engendrados pelas possibilidades mesmas dos meios de representação de cada arte.

É o caso do cinema de animação, cujos atributos tecnológicos e processuais possibilitam uma plasticidade para além da figura humana: a plasticidade do gesto. O cinema, por seu aparato técnico capaz de dotar a imagem de movimento, evidencia na cultura visual a experiência do corpo em uma de suas instâncias elementares: o gesto. Este será, a princípio, limitado pela natureza física do corpo, uma vez que o cinema, à exemplo da fotografia, elaborou sua representação com base no corpo real. Assim, no espaço da prática cinematográfica, caberá, principalmente, à arte da animação a possibilidade de libertar o gesto de sua prisão. Pois, ao se tratar de uma arte de representação híbrida, que faz uso do dispositivo cinematográfico associado a outras formas imagéticas, como a pintura, a animação possibilita que o gesto seja recriado em uma infinidade de formas. De fato, no cinema animado, se inventa uma plasticidade própria para o corpo, possibilitando a construção de novos sentidos para o mesmo.

A partir do exposto, propõe-se discutir como esta possibilidade de moldar o gesto a partir do processo animado, permite não somente novas formas de experiencia-lo, mas também como dá continuidade a utopias, desejos e mitos de formas singulares. Neste empreendimento, considera-se, ainda, a animação em sua conexão com outras artes de representação. De fato, a linguagem de animação se desenvolve no início do século XX, período em que o campo da arte executava profundas transformações no modo como o corpo era representado. “Fragmentar, decompor, dispersar: essas palavras se encontram na base de qualquer definição do “espírito moderno”” (MORAES, 2002, p. 56). Artistas do período empreenderam a transfiguração, a fragmentação, a metamorfose, e até a ausência do corpo. Exemplos encontram-se nas obras de Picasso, Dali, Magritte, Miró, entre outros. Para Eliane Robert Moraes (2002), tratou-se de desconstruir a forma humana, desumanizando-se também a arte.

Nesse momento de repensar o corpo na arte, é possível que o cinema de animação tenha abarcado parte desses novos paradigmas. É emblemático, por exemplo, que os primeiros experimentos animados tenham sido marcados por uma enorme reconfiguração do corpo (em figura e gesto), como se testando seus limites (como vemos em Little Nemo de Winsor McCay – 1911). Assim, na arte animada, não só a figura, mas também o gesto será desconstruído, caricaturado, desumanizado, repensado para além de sua corporeidade.

Como objeto deste estudo, destaca-se, a princípio, as experiências da animação cartoon, que marcou profundamente a linguagem de animação. Adicionalmente, busca-se observar exemplos de como o corpo é problematizado em animações de diversos contextos durante o século XX que, pelo desvinculo com modelos de representação específicos, configuram-se como exemplos singulares, formas particulares de problematização do corpo na arte da animação. Em suma, busca-se identificar no modo como se representa o corpo em animação uma forma particular de repensá-lo.
Bibliografia

BENDAZZI, Giannalberto. Cartoons: One Hundred Years of Cinema Animation. Bloomington: Indiana University Press, 1995.

EISENSTEIN, Sergei. Eisenstein on Disney. Seagull Books Pvt Ltd, 1986.

FOUCAULT, Michel. O corpo utópico, As heterotopias. São Paulo: n-1 Edições, 2013.

GOMBRICH, Ernst Hans. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007.

MATESCO, Viviane. Corpo, imagem e representação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

MORAES, Eliane Robert. O corpo impossível. São Paulo: Editora Iluminuras, 2002.