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  Título
Batatinha, o Diplomata do Samba: De Barravento a Sangue Azul
Autor
Marcos Pierry
Resumo Expandido
Como surge e ressurge o universo lírico de um sambista em filmes brasileiros de diferentes épocas e autores? E como sua lírica opera no sentido de cada filme? As indagações ganham força quando se pensa no cantor e compositor baiano Oscar da Penha (1924-1997), o Batatinha, que do início dos anos 1960 à produção mais recente pontua, de maneira diversificada, em ao menos treze trabalhos.

Marceneiro e gráfico antes de a música dar-lhe reconhecimento, Batatinha foi assim batizado por Antônio Maria. O cronista e compositor pernambucano, ao atuar como locutor numa rádio de Salvador em meados dos anos 1940, lançou como intérprete o então jovem letrista nascido na capital baiana, filho de um estivador e de uma dona de casa. A interpretação de suas canções por outros artistas nas décadas seguintes (Jamelão, Maria Bethania, Alcione, Eliana Pittman, Caetano Veloso, Nara Leão, Jair Rodrigues, Chico Buarque etc.), se não lhe garantiu popularidade massiva, cristalizou seu nome na plêiade de bambas da terra-de-todos-os-santos; reverenciado por Jorge Amado como “figura singular” e por Paulo da Viola comparado a Nelson Cavaquinho e Cartola.

Em filmes angulares do cinema novo (Barravento/1961 e O Desafio/1965), os versos de Diplomacia, parceria com J. Luna, talvez sua canção mais conhecida, são apropriados como monólogo (Firmino/Antônio Pitanga) e diálogo (Marcelo/Oduvaldo Vianna Filho), operando na subjetivação de personagens que, seja no litoral norte da Bahia ou em botequim da zona sul carioca, experimentam momentos de derrisão e solidão.

Em Capitães da Areia (2011), a canção Direito de Sambar aparece entoada por um saveirista burguês e gago (Aurélio do Santos/Zéu Brito) – dentro de um bar na fictícia Salvador de 1937, ano da publicação do romance de Jorge que deu origem ao longa dirigido por Cecília Amado, neta do escritor – após o personagem dedicar a música “às almas dos poetas de todos os anos”. Nos documentais Bahia de Todos os Sambas (1983/1996), de Paulo César Sarraceni e Leon Hirszman, e A Resistência da Lua (1985), de Octávio Bezerra, a música em cena é protagonizada pelo próprio Batatinha, definindo territórios de baianidade entre estrelas da MPB, em formato mega-show em Roma, ou no espaço resistente e diminuto de um restaurante do Pelourinho.

Em Jubiabá (1986), de Nelson Pereira dos Santos, ou em dois faroestes à brasileira de Edward Freund – Um Pistoleiro Chamado Caviúna (1971) e Quatro Pistoleiros em Fúria (1972) – temos o Oscar da Penha ator, assumindo papeis ficcionais que se aproximam e distanciam do seu universo de arquetípico baiano e/ou de bardo solitário do samba triste, dualidade jamais negada pelo artista, e constatada em documentários como Batatinha e o Samba Oculto da Bahia (2007), de Pedro Abib, e Batatinha Poeta do Samba (2008), de Marcelo Rabelo.

Os longas recentes Sangue Azul (2015) e Largou as Botas e Mergulhou no Céu (2017), retomando o segmento da ficção, atualizam a obra de Batatinha em seu percurso no cinema brasileiro e multiplicam os sentidos de seu universo temático, que ao longo de mais seis décadas, espraia-se da província para outros territórios geográficos e simbólicos.

Esta proposta de comunicação apresenta os resultados de uma prospecção inicial sobre Batatinha no cinema, tema derivado do projeto de pesquisa de doutorado Cinema, Samba e Improviso: Cadências de Vanguarda no Filme Brasileiro (1957/1987), desenvolvido por mim sob a orientação do Prof. Dr. Leonardo Vidigal, junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, com defesa prevista para julho de 2017.
Bibliografia

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LOPES, Nei e SIMAS, Luiz Antonio. Dicionário da história social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

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STAM, Robert. Multiculturalismo tropical – uma história comparativa da raça na cultura e no cinema brasileiros. São Paulo: Edusp, 2008.

VIDIGAL, Leonardo Álvares Vidigal. A Jamaica é aqui – tese de doutorado. UFMG/FAFICH, 2008. Orientação: Maria Regina de Paula Mota.