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  Título
Do fim do mundo à abertura da história: cinema e resistência ameríndia
Autor
Ana Carolina Cernicchiaro
Resumo Expandido
Há cinco séculos, os povos nativos das Américas enfrentaram - e continuam enfrentando - um apocalipse. Um fim de mundo digno de ficção científica, já que o mundo como se conhece foi invadido, saqueado, devastado, atingido por um outro, pelo Velho Mundo e sua lógica da mercadoria, da hierarquia, da dicotomia, da inclusão exclusiva, da universalidade excludente capitalista. Um apocalipse que não acaba nunca, pois a fantástica fabricação de riqueza e de miséria que é o mercado - para usar uma expressão de Deleuze (1992. p. 213) - abarca cada dia mais pessoas, ao mesmo tempo que exclui massas inteiras; de forma que, quanto mais universalizante o capital, mais incluso em sua exclusão está o indígena. Apreendido como brasileiro (em sua "representação" política e estética, como dado demográfico e como imagem), ele é apreendido num esterótipo, num clichê esvaziado. A indigenização como desindianização, mas também como "indigentização", como empobrecimento, como exclusão social.

Como desarticular esse processo de invisibilidade social? Essa limpeza étnico-espetacular, que nega ao outro o direito à voz, ao discurso, mas também à imagem, à visibilidade, que quer transformar os povos originários em povos sem rostos, reduzidos a estereótipos, a clichês, e desvia a palavra imagem de sua potência de alteridade? Como fazer para que, como pergunta Didi-Huberman (2014, p.11), os povos se exponham a si mesmos e não a sua desaparição? Afinal, se o fim do mundo indígena é um fim contínuo, se seu mundo é aquele que não cessa de desaparecer, de acabar... é porque também não cessa de persistir, de resistir, de insistir em existir.

Tal resistência aparece na luta pela sobrevivência, mas também na insistência de sua arte, de sua poética, de sua filosofia, de seu pensamento, que vêm ganhando formas novas de se difundir a partir do contato com a tecnologia dos brancos. Este é o caso do projeto Vídeo nas Aldeias, que, desde 1986, já realizou 127 oficinas com 37 povos indígenas e 87 filmes, a maioria deles dirigidos pelos próprios índios, que registram e editam suas imagens, como sujeitos de sua própria história, e não mais como objeto de conhecimento.
Bibliografia

ARAÚJO, Ana Carvalho Ziller (org.). Vídeo nas Aldeias 25 anos: 1986-2011. Olinda, PE: Vídeo nas Aldeias, 2011.

BRASIL, André. Bicicletas de Nhanderu: lascas de extracampo. Devires. Belo Horizonte, v.9, n.1, p. 98-117. Jan/Jun, 2012.



CESAR, Amaranta. Tradição (re)encenada: o documentário e o chamado da diferença. Devires. Belo Horizonte, v.9, n.1, p 86-97, jan/jun 2012.



DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro: Cultura e Barbárie, 2014.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Pueblos expuestos, pueblos figurantes. Buenos Aires, Manantial 2014.



GUIMARÃES, César. As imagens dos Guarani e Kaiowá resistem. In: BRANDÃO, Alessandra; LIRA, Ramayana. A sobrevivência das imagens. Campinas: Papirus, 2015.



VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. "A indianidade é um projeto de futuro, não uma memória do passado", entrevista a Pádua Fernandes. Prisma Jurídico, v. 10, n. 2, jul.-dez. 2011.