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  Título
O êxtase segundo Werner Herzog
Autor
Gilberto Caetano Manea
Resumo Expandido
Operando esteticamente com a categoria de "imagem de pensamento" (denkbilder), de Walter Benjamin e com as meditações sobre o êxtase em Georges Bataille, pretende-se nesta exposição designar algumas linhas de análise e reflexão crítica sobre experiência-limite e êxtase na obra documental de Werner Herzog. Esta análise colocará em relação duas obras de Herzog, "O Grande Êxtase do Entalhador Steiner" (1974) e "A Caverna dos Sonhos Esquecidos" (2010) em correspondência com a figura poética do narrador benjaminiano.

No cinema de Werner Herzog, inscrevem-se as experiências-limites a que se entregam os seus personagens, tanto na ficção quanto no documentário. Limites da existência e da linguagem. Limites entre o que pode ser dito e o que pode ser expresso pela captação das câmeras. Limites entre o visível e a inteligibilidade ascética reconhecida pela empatia ou cumplicidade do espectador. Num esforço sobre-humano de bioascese, seus personagens sinalizam tanto ao êxtase quanto à intermitência da morte. Entre a fabulação e o real, "o êxtase é o grito silencioso do corpo" na experiência cinematográfica de Herzog em busca da verdade extática. E no seu encontro com a realidade de pequenos e grandes dramas da existência e de sonhos quase sempre fadados ao impossível. Certamente que o modus operandi de Werner Herzog participa em algum medida de uma atitude romântica própria do ethos germânico, do Homem desafiando as forças da Natureza, cujo emblema pictórico referencial pode ser reconhecido na pintura paisagística de Caspar David Friedrich (muitas vezes evocada também pela mise en scène do cineasta russo Aleksander Sokurov) ou o grande drama da sobrevivência silenciosa e insuportável de homens e mulheres diante das leis das cidades que não os comportam. Sem necessitar colocar-se debaixo dos grandes clássicos da filosofia, suas questões filosóficas são genuinamente autorais e extemporâneas, enunciadas diretamente pela presença de seu corpo e de sua voz, como alguém que reporta, que reconta tal como o narrador benjaminiano, as experiências de suas viagens ao País dos Extremos. Posicionando seu corpo e sua voz como medida exata de sua poiesis e da auto-mise-em-scène de seus documentários, Werner Herzog apresenta-se como um cineasta que se coloca como observador-participante da busca da verdade do êxtase nas situações extremas, sejam estas vivenciadas pelos gestos e ações de seus personagens ou representadas pelos lugares e paisagens longínquas. Rostos e paisagens que expõem pela experiência-limite, tantos os arquétipos de uma biopolítica quanto uma estética da (r)existência.
Bibliografia

BATAILLE, Georges. A experiência interior (trad. Fernando Sheibe). Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

BENJAMIN, Walter. O Narrador. In.: Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. (trad. Maria Luz Moita, Maria Amélia Cruz, Manuel Alberto). Lisboa: Relógio D`Água, 2012.

BENJAMIN, Walter. Imagens de pensamento/Sobre o haxixe e outras drogas . (trad. João Barrento). Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e Poder – A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: UFMG, 2008.

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NAGIB, Lúcia. Werner Herzog – O Cinema Como Realidade. São Paulo: Estação Liberdade, 1991.

PELBART, Peter Pál. Vida Capital – ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.