Voltar para a lista
 
  Título
“Crítica”, comentário e paródia: o “falar de cinema” no YouTube
Autor
Jose Maria Mendes Pereira Junior
Resumo Expandido
Em um contexto em que todo indivíduo é, potencialmente, uma mídia, de voz distribuída através das redes sociais digitais, a busca pelo que postar faz com que todos aqueles inseridos nesse contexto, vez ou outra, passem pelo momento de definição de pauta, cujos critérios de definição levam em conta o poder de gerar mais retorno, na forma de comentários, curtidas compartilhamentos ou mesmo na pura e simples conversação (RECUERO, 2014). Percebe-se que o “trabalho” de postagem, do mesmo modo que exige “planejamento”, pede, em troca, alguma forma de reconhecimento social, o qual se complexifica até produzir indivíduos hiper conectados que, no estudo de redes, são chamados de conectores. Segundo Barabási (apud RECUERO, 2014) esses atores-chave que adquiriram posição central na estrutura começam ser importantes divulgadores de ideias e opiniões, que passam a influenciar outros indivíduos, muitas vezes em processos que disfarçam o elemento estratégico por trás da “fachada” (GOFFMAN, 1985) de simples conversa de amigo. Muitos desses indivíduos começam a ser chamados pelo mercado publicitário de “influenciadores digitais” exatamente pela força que exercem ao dar endosso, por exemplo, de um "incrível filme que você não pode perder”. A indústria cinematográfica já descobriu esse poder, apostando cada vez mais no “influencer marketing” (MARCONDES, 2017) para gerar conversação em torno de seus grandes lançamentos, o que leva a questionamentos éticos, pois, muitas vezes, esse caracter publicitário se esconde na própria indefinição entre “vida” e “obra” que tanto caracteriza os conteúdos desses atores digitais (SIBILIA, 2008). De fato, não é possível saber se aquele comentário positivo sobre o filme “super irado” que saiu no último fim de semana é um endosso pago ou apenas uma fala espontânea do influenciador porque o próprio cinema, como arte mais acessível, ou melhor, como entretenimento mais próximo, faz com que ele não apenas vire a pauta, por um desejo estratégico, mas seja pauta, por um ordinário senso de conversa comum, que gira em torno das mídias de função massiva (LÉVY, LEMOS, 2010), especialmente quando se trata de um cinema voraz em produzir grandes lançamentos em série, configurando seus produtos para tornarem-se “commodities culturais” (FISKE apud JENKINS, 2014), ou seja, assuntos sobre os quais, à medida que uns falam, outros vão falando e assim por diante, até fazer daqueles blockbusters (ELBERSE, 2014) “imperdíveis” do ponto de vista do zeitgest daquele tempo. Um exemplo claro desses processos está na figura de Whindersson Nunes, dono do maior canal do YouTube no Brasil (FILIPPE, 2017) e que também se tonou conhecido por trazer a “commodity” do cinema como pauta de seu conteúdo.“O dia em que assisti Cinquenta Tons Mais Escuros” ou “O dia em que assisti Batman vs Superman” são vídeos bastante populares no canal citado, primeiro pela estratégia do ator de falar sempre sobre os grande filmes e, segundo, pelo modo como ele se coloca diante desses processo de “falar de cinema”, sem nenhum vestígio de intelectualidade que tornaria tal gosto (arte) legítimo (BORDIEU, 2015). Ele não cita o conhecimento enciclopédico de diretores ou filmes clássicos ou muito menos faz menção aos elementos estéticos de imagem ou do som. Suas “críticas” de filmes blockbusters se revestem de paródia, através de imitações do comportamento dos personagens e do seu próprio comportamento diante do filme, fugindo de qualquer discussão mais complexa. Ao mesmo tempo, ele se abstém do ato de recomendação, muito provavelmente porque não foi pago pelos estúdios para isso. Ainda assim, por efeito da própria posição de “influenciador”, aquele comentário e paródia acaba ganhando validade como crítica e recomendação, incluive gerando pedidos da audiência, sempre espera pelo próximo “vídeo de crítica de filmes” de Whindersson, que faz do cinema, assim, uma de suas armas estratégicas para ganhar e manter uma audiência sempre sedenta pela sua próxima pauta/ vídeo.
Bibliografia

BORDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. 2. ed. Porto Alegre: Zouk, 2015. ELBERSE, Anita. Blockbusters. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.

FILIPPE, Marina; et all. Polêmicos, populares e influentes. Revista Exame, nº 1.132, ano 51, nº4. São Paulo: Editora Abril, março de 2017.

GOFFMAN, Erving. Representações do eu na vida cotidiana. tradução por Maria Célia Santos Raposo. Petrópolis: Vozes, 1985.

JENKINS, Henry. Cultura da Conexão: cirando valor e significado por meio da mídia propagável. São Paulo: Editora Aleph, 2014.

LÉVY, Pierre; LEMOS, André. O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia planetária. Paulus Editora, 2010.

MARCONDES, Pyr. O que é influencer marketing. Disponível em: . Acesso em 15 mar. 2017.

RECUERO, Raquel. Redes socais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2014.

SIBILIA, Paula. O Show do Eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.