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  Título
Cinema e sound-systems: construindo um gênero musical e o som do filme
Autor
Leonardo Alvares Vidigal
Resumo Expandido
Uma maneira de filmar o som é documentar sua gênese e como as pessoas lidam com os aparatos que o tornam audível, procurando pela essência do som. Sound-systems, ou sistemas de som, são equipes que se aglutinam e trabalham juntas com uma única motivação: fazer um tipo específico de massa sonora chegar aos ouvidos de um dado público. Nesse caso, uma massa sonora cujas condições de possibilidade envolvem equipamentos, como caixas de som e amplificadores com um nível de customização e adaptação mais altos do que normal, geralmente organizados em quatro linhas de alto-falantes, respectivamente responsáveis pelas frequências graves, médio-graves, médias e agudas, cada uma com amplificador próprio. É um conjunto de caixas de som concebido para favorecer as frequências graves, as mais importantes de um determinado gênero de música popular e suas variações: o reggae.

O cinema teve um papel importante no processo de tornar o reggae conhecido fora de onde se condensou culturalmente, a Jamaica, e também reconhecido como gênero musical relevante para a própria sociedade da ilha caribenha. Outra sociedade em que o cinema se fez presente foi a Grã-Bretanha, onde foram realizados quase todos os filmes envolvendo sound-systems.

Por meio desses aparatos, é possível entreter por várias horas um contingente significativo de ouvintes, dançantes e falantes, ao mesmo tempo em que se ocupa sonoramente espaços públicos e também privados. Trata-se de um modelo que existe na Jamaica desde os anos 1940, mas se tornou socialmente relevante nos anos 1950, quando alguns proprietários de sound-systems começaram a produzir música original, com o intuito de possuir faixas exclusivas para suas equipes. Esta é uma das origens do reggae, um gênero musical que também teve no cinema um campo privilegiado de expressão, por meio de filmes como The Harder They Come (dirigido por Perry Henzell e estrelado por Jimmy Cliff), Rockers (dirigido por Theodorus Bafaloukos e contando diversos artistas de reggae conhecidos no elenco), e Babylon (dirigido por Franco Rosso e estrelado pelo cantor Brindsley Forde, da banda britânica Aswad).

Foi no Reino Unido que os sound-systems atingiram o ápice em qualidade técnica, passando a ser referência para a sua disseminação. Hoje a cultura dos sound-systems é um dos principais vetores mundiais da cultura de rua, levando milhões de pessoas para eventos gratuitos ou pagos nos cinco continentes. Diversos filmes feitos ao longo das últimas décadas tiveram os sound-systems como tema principal, como o filme de ficção Babylon (Franco Rosso, 1980) e os documentários Sound Business (Molly Dineen, 1981), Peoples Sounds (Robert Harvey, 1983), Sound-Systems (Enda Murray, 1990) e Musically Mad (Karl Folke, 2010). Outros tomaram as equipes de som como um dos contextos para o enredo, como We the Raggamuffin (Julian Henriques, 1994) ou, como no documentário Dread, Beat and Blood (Franco Rosso, 1979) e no filme-ensaio experimental Territories (Isaac Julien, 1984), tratados como exemplo de resistência em filmes sobre a delicada situação da população afrodescendente na Grã-Bretanha, ao mesmo tempo em que o som em si era caracterizado.

Estes filmes serão analisados, com ênfase nas estratégias de pós-sonorização e na construção do arranjo audiovisual - paisagem sonora incorporada ao filme e também fabricada por meio da captação, mixagem e edição (Vidigal, 2009) - em diversos segmentos, principalmente nas películas Babylon, Sound Business e Territories. Os diversos pontos de escuta constituídos por filmes sobre a construção de um determinado modo de se organizar a audição da música também serão investigados. Cinema e música popular se valeram de uma poderosa aliança para se manter no topo da indústria cultural, mas mesmo em suas margens houve a constituição de uma força visceral, somente explicável pela união das características do contexto sociocultural com as relações internas dos filmes, engendradas entre o elemento visual e a banda sonora.
Bibliografia

CHION, Michel.Film, A Sound Art. Nova York: Columbia University Press, 2009

Henriques, Julian. Sonic bodies: Reggae Sound-systems, performance techniques and ways of knowing. Londres: Continuum Books, 2011

RICHARDSON, John, GORBMAN, Claudia, VERNALIS, Carol (orgs.). The Oxford Handbook of New Audiovisual Aesthetics. Oxford: Oxford University Press, 2013

SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora Unesp, 2001

SMITH, Jeff. Banking on film music: structural interactions of the film and record industries. In: Dickinson, Kay. Movie Music: the film reader. Londres: Routledge, 2003

VIDIGAL, Leonardo A. “A Jamaica é aqui”: relações entre música e território no audiovisual. Revista Brasileira do Caribe. Centro Brasileiro de Estudos Caribenhos. Vol. IX, número 18, págs. 425-483. Janeiro de 2009

____________________. Reggae Documentaries in Brazil. In: Carolyn Cooper. (Org.). Global Reggae. Kingston: Canoe Press, 201