Voltar para a lista
 
  Título
O testemunho, a montagem e as margens do arquivo
Autor
leandro pimentel abreu
Resumo Expandido
As técnicas de montagem e colagem das vanguardas modernas podem ser sintetizadas no gesto de recolhimento de fragmentos colocados em uma moldura. Ao recombinarem-se, potencializavam um tipo de memória recalcada que se manifestava a partir das novas relações que se estabeleciam. Seria preciso ultrapassar a significação, atravessar as fronteiras que distinguem o que pode ou não ser lembrado, arrancar os documentos desses limites e colocá-los em um outro lugar no qual fosse possível ver os traços de eventos passados. Sem a ansiedade da representação, essas imagens voltam-se para o presente. Assim como os testemunhos, que buscam atualizar no gesto e na fala uma experiência, a montagem possibilita que o acontecimento salte do continuum da história progressiva, como diria Walter Benjamin.

O testemunho circula em um lugar ambíguo entre os recursos memoriais. Sua representação do passado ocorre por narrativas, artifícios retóricos e imagens. Para Paul Ricœur, o testemunho “resiste não somente à explicação e à representação, mas até à colocação, a ponto de manter-se deliberadamente à margem da historiografia e de despertar dúvidas sobre a sua intenção veritativa.”(Ricœur, p. 170, 2008). Nos registros de testemunhos, a performatividade dos corpos no esforço de construção de uma narrativa ganha uma outra camada, que se manifesta na fotografia, na montagem e na apresentação, que se manifestam de forma singular nos trabalhos contemporâneos que flertam com o potencial mnemônico dos silêncios, lacunas e intervalos presentes nas imagens e nos arquivos.

Um bom exemplo do potencial do uso desses espaços intersticiais nas imagens de arquivo é o filme-ensaio de Christian Delage. Cineasta e historiador, teve acesso ao material bruto filmado por John Ford no julgamento dos crimes nazistas em Nuremberg. A partir desse arquivo, Delage produziu o longa Nuremberg, les nazis face à leurs crimes, no qual se propõe a investigar as imagens e as condições em que foram realizadas, tendo como apoio o depoimento das testemunha presentes no decorrer do julgamento.

No contato com o material da filmagem, Delage procurou dar uma maior atenção às hesitações, aos tropeços da fala e aos silêncios, aquilo que normalmente seria descartado na montagem. Os gestos corporais e os momentos de pausa passaram a ter interesse particular. Buscou-se uma leitura daquilo que não foi verbalizado mas que surge com potência nessas lacunas, em que o desejo de comunicar se afasta e o testemunho ocorre por meio de uma simples presença, produzindo um ruído nesse local, em que os papéis e as falas de cada um pareciam estar definidos desde o início.

O trabalho de Delage remete à instalação Entre l’écoute et la parole: Derniers Témoins, Auschwitz-Birkenau 1945/2005, apresentada em 2010 pela artista Esther Shalev-Gerz. Em três telas, com uma defasagem de sete segundos entre as imagens projetadas em cada uma delas, aparecem em câmera lenta e sem som, os rostos. Não há falas, somente os silêncios e as pausas ao longo dos depoimentos dos sobreviventes dos campos de concentração. As imagens são em um plano relativamente fechado no rosto e a mesma imagem aparece em cada tela com uma decalagem de sete segundos, o que faz com que os gestos projetados em câmera lenta se prolonguem ainda mais. Ao destacar as marcas no rosto, as expressões da face e os gestos, a artista busca apontar essa presença viva da memória no discurso. Uma inscrição da memória no corpo, mais do que em uma fala concatenada por uma narrativa.

Os dois trabalhos, o filme-ensaio de Delage e a instalação de Shalev-Gerz, buscam enfatizar o gesto e aquilo que não está dito de modo explícito. Essa sobrevivência, que ocorre por meio de uma memória manifesta, independente da capacidade de verbalização do que ocorreu, torna-se perceptível a partir da montagem na qual são inseridas legendas, títulos, silêncios ou narrações, possibilitando ao espectador, a experiência do silêncio eloquente da imagem.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Moyen sans fin, notes sur la politique. Paris: Rivage Poche, 2002a.

DELAGE, Christian. The place of filmed witness: from Nuremberg to the Khmer Rouge trial. http://cardozolawreview.com/Joomla1.5/content/31-4/DELAGE.31-4.pdf (acessado em 06/04/2017)

DIDI-HUBERMAN, Georges. Images malgré tout. Les éditions de Minuit. Paris, 2003.

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. São Paulo: Forense Universitária, 2007.

HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de janeiro: Aeroplano Editora, Rio de Janeiro, 2000.

LISSOVSKY, Mauricio. “4 + 1 dimensões do arquivo”. In: Mattar, Eliana (org.) Acesso à informações e política de arquivos, Rio de Janeiro, 2004, p. 47-63.

RICŒUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Paul François. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.

SHALEV-GERZ, Esther. The Contemporary Art of Trusting Uncertainties and Unfolding Dialogues. 2014.