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  Título
Jean Renoir: A arte em defesa da unidade
Autor
Cícero Pedro Leão de Almeida Oliveira
Resumo Expandido
A obra de Jean Renoir é geralmente elogiada pelo realismo de caráter humanista. Os seus clássicos dos anos 1930 são marcados por uma preocupação social, quando o cineasta, segundo ele mesmo, possuía uma voz de protesto terna e sarcástica. No entanto, a Segunda Guerra Mundial mudou sua perspectiva. “Hoje, o novo ser que eu sou percebe que este não é o momento para o sarcasmo e que a única coisa que eu posso trazer a este universo ilógico, irresponsável e cruel é o meu ‘amor’.” (RENOIR, 2017, p.364). A produção que marca essa mudança é O Rio Sagrado (The River, 1951). A partir de então, sua obra não destaca aspectos político-sociais. Estes filmes, que são o foco do seminário, abordam mais como a arte pode afetar a sociedade e o próprio artista.



Nesta transição também há uma mudança estilística. Segundo David Bordwell (2013), nos anos 1930 Renoir prolongava movimentos de câmera e a locomoção dos atores. Entretanto, a partir de O Rio Sagrado se percebe uma câmera mais fixa, ainda que a movimentação dos atores, em algumas obras, continue intensa, como ocorre em A carruagem de ouro (Le carrosse d’or, 1952) e Cancan Francês (French Cancan, 1955). No entanto, os filmes permanecem marcados pelo embate entre uma existência estática e um irresistível movimento da vida (DOUCHET in BAZIN, 1974). O que muda é a condução desse conflito para uma discussão sobre a arte.



Um dos males dos tempos modernos, segundo Renoir, é a difusão, já que uma arte como o cinema existe pelo caráter de propagação. Antes, um artista como o trovador não precisava de difusão, já que ele mesmo se difundia, sem a necessidade de especializações. Angustiava o diretor como o cinema havia se segmentado, com vários cargos e funções. “É preciso que lutemos contra esses males e que consigamos manter, mesmo num ofício moderno como o nosso, a unidade de concepção, a união da criação” (RENOIR, 1990, p.78). A unidade estaria, por exemplo, no que Renoir descreveu como grandeza dos primitivos, que ocorre no início das manifestações, quando os artistas, devido a limitações técnicas, não buscavam imitar a realidade. Assim, os seus últimos filmes são exemplos de defesa a uma unidade de concepção, pois eles reinventaram fatos históricos, criaram sociedades próprias e apresentaram um artificialismo visual. Este embate vai se dar de forma contraditória, pois na época Renoir trabalhava justamente em estúdios cinematográficos. No entanto, tal contraste fornece uma melancolia aos filmes, sendo que tanto essa melancolia quanto a busca por uma condição primitiva da arte serão sempre implícitas.



Renoir também possui uma extensa obra escrita, com vários artigos, entrevistas e livros publicados. Estas produções refletem o tom de seus filmes. Inácio Araujo afirma que a prosa do diretor é uma experiência cinematográfica. “Para ele, não se trata de compreender o mundo por meio de ideias, mas sensivelmente. No cinema - como na pintura – não existem ideias, ou antes delas se convertem em gestos, movimentos, objetos e luz.” (ARAÚJO, p.130, 2010). Os seus escritos não resultam em uma teoria fechada, mas tal espontaneidade é sólida e consequência de sua formação. Raymond Durgnat (1974) afirma que o cineasta herdou de seu pai, o pintor August Renoir, a visão de que a arte está relacionada a aspectos do dia a dia.



O objetivo dessa proposta é esmiuçar alguns textos e filmes de Renoir lançados a partir de O Rio Sagrado para identificar como eles configuram uma reflexão teórica sobre a arte, cientes de que na relação entre as obras escrita e fílmica de Renoir, os filmes não são a materialização exata dos seus textos. Essa relação é mais de complementariedade, com texto e estilo cinematográfico formando uma visão sobre a arte marcada por diferentes conflitos entre questões como realismo interior e realismo exterior. É preciso ressaltar que também serão abordados filmes de pouco destaque, como Estranhas coisas de Paris (Elena et les hommes, 1956) e Almoço sob a relva (Le déjeuner sur l'herbe, 1959).
Bibliografia

ARAUJO, Inácio. Cinema de boca em boca. São Paulo: Imprensa oficial, 2010.



BAZIN, André. Jean Renoir. Londres e Nova York: W.H.ALLEN, 1974.



BORDWELL, David. Sobre a história do estilo cinematográfico. Campinas: Editora da Unicamp, 2013



DURGNAT, Raymond. Jean Renoir. Londres: University of California Press, 1974



RENOIR, Jean. “Algo aconteceu comigo”. In: Julio Bezerra. (Org). A vida lá fora: O cinema de Jean Renoir. 2017.



_______, Jean. Escritos sobre cinema, 1926-1971. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.