Voltar para a lista
 
  Título
A PRÁTICA CURATORIAL NOS FESTIVAIS DE CINEMA BRASILEIROS - REFLEXÕES
Autor
Tetê Mattos [Maria Teresa Mattos de Moraes]
Resumo Expandido
Nos últimos anos estamos assistindo a profundas transformações nos festivais de cinema no que tange à questão da seleção dos filmes. Com a crescente digitalização da produção, da distribuição e da exibição a atividade cinematográfica irá sofrer consequências inevitáveis no domínio da “programação de filmes” ou da “curadoria dos filmes”.

O termo “curador”, originalmente usado para o campo das artes visuais, dos museus e das galerias de arte, passa a ganhar destaque no campo cinematográfico conotando um nível mais sofisticado de conhecimento deste profissional cuja tarefa ultrapassa a mera seleção das obras. Se no campo das artes há uma “tendência recente, pós-moderna, de valorizar o crítico e o historiador da arte e de colocá-lo em pé de igualdade com o artista” (COELHO, 1997, p.141), observamos que no caso de alguns festivais de cinema o mesmo fenômeno se faz presente.

Para Bosma um festival de cinema é o local onde as mais recentes produções audiovisuais são apresentadas, onde são encontradas as primeiras tendências artísticas, além do local de sociabilidades entre cineastas, especialistas, produtores, críticos, cinéfilos, entre outros.

Um curador de festivais é aquele que seleciona os filmes para as exibições públicas a partir de diversos critérios, sendo estes critérios objetivos e subjetivos. Os critérios objetivos partem de um escopos de conteúdo (novos filmes, escolha por gênero cinematográfico, filmes femininos, LGBT), de escopos geográficos (internacionais, nacionais, regionais); de escopos de exclusividade (promover estreias mundiais); e de escopos de um público-alvo. Do ponto de vista dos critérios mais subjetivos, Bosma aponta dois tipos de estratégias curatoriais, mesmo que estas se sobreponham: a primeira delas incide sobre filmes que apresentam uma renovação artística, uma contribuição poética a um cinema inovador. A outra estratégia baseia-se numa motivação ativista com programas que tratam de direitos humanos, problemas sociais, ambientais, etc... Para o autor todas as estratégias são em grande parte subjetivas e pessoais. Trata-se de um processo misterioso que combina intuição, idealismo e ambição.

O desafio de compor um programa interessante, atrair o público, e ganhar a atenção da crítica dentro de um orçamento possível, faz da prática curatorial uma tarefa de alta pressão. Além disso, para Bosma “um curador de filme tem que realizar um ato de equilíbrio entre as tradições da arte cinematográfica, e as desconstruções desta tradição”. (BOSMA, 2015)

Para Usai et ali os curadores são os profissionais que possuem a “arte de interpretar a estética, a história, a tecnologia do cinema através de coleções seletivas” (USAI, p.231)

Nesta comunicação pretendemos descortinar os diferentes papéis atribuídos à figura do curador de festivais de cinema. Centraremos a nossa análise no estudo de caso de três distintos festivais buscando compreender, não só os bastidores do processo de seleção das obras audiovisuais, mas também de que maneira a atividade curatorial pode ser vista como uma forma de pensar sobre o mundo.

Serão investigados o Festival do Rio, evento internacional de grande porte, criado em 1999, com importante repercussão no Brasil e exterior. A Mostra de Cinema de Tiradentes, evento nacional criado em 1998 na cidade mineira, vem se consolidando como um importante espaço de exibição e reflexão da produção audiovisual mais inventiva. A Mostra em suas últimas edições contribuiu para um importante debate sobre a prática curatorial, influenciando o cenário crítico audiovisual brasileiro. E por fim, refletiremos sobre as transformações no processo de seleção dos filmes do Araribóia Cine, evento nacional, de pequeno porte, realizado entre os anos de 2002 e 2013, na cidade de Niterói.

A curadoria dos festivais de cinema pode ser considerada uma forma de arte? Quais são os critérios para as escolhas dos filmes exibidos na programação dos festivais? Quais ambições podem ser percebidas na prática curatorial?
Bibliografia

BOSMA, Peter. Film Programming: Curating for Cinemas, Festivals, Archives. London, New York: Wallflower Press, 2015.

CASTILLO, Sonia Salcedo del. Arte de Expor - Curadoria Como Expoesis. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2014.

COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Iluminuras, 1997.

DE VALCK, Marijke. Film Festivals: From European Geopolitics to Global Cinephilia. Amsterdam: Amsterdam Univ. Press. 2007.

IORDANOVA, Dina [org.]. The Film Festival Reader. St Andrews, Escócia: St Andrews Film Studies, 2013.

OBRIST, Hans Ulrich e RAZA, Asad. Caminhos da curadoria. Rio de Janeiro: Cobogó, 2014.

OBRIST, Hans Ulrich. Uma breve história da curadoria. São Paulo: Bei Comunicação, 2010.

USAI, Paolo Cherchi ; HORWATH, Alexander; FRANCIS, David; LOEBENSTEIN, Michael. Film Curatorship: Archives, Museums, and the Digital Marketplace. Viena, Austria: SYNEMA Publikationen, Vienna, 2008.