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  Título
A infância no documentário – intersecções com as Ciências Sociais
Autor
Letizia Osorio Nicoli
Resumo Expandido
Esta proposta parte de uma investigação conduzida durante nosso doutoramento, focada na representação cinematográfica documental da infância. Voltamo-nos para filmes estruturados a partir de uma situação de alteridade bastante peculiar, que envolve um realizador adulto e seu objeto, a criança.

Tal encontro é caracterizado, assim, por uma dificuldade de autorrepresentação de uma das partes, uma vez que crianças dificilmente dominam o manuseio das ferramentas técnicas e tecnológicas para a realização audiovisual. Além disso, o desenvolvimento dos códigos verbais , da condução do raciocínio e das formas de expressão nas crianças e adolescentes diferem dos adultos (NICOLI, 2012), desacreditando esses sujeitos para qualquer tentativa de construção de uma representação cinematográfica.

Ao longo de nossa pesquisa, percebemos uma constante articulação de alteridades múltiplas entre os realizadores e seus sujeitos. A infância e a adolescência se apresentam como alteridades “temporárias” em relação ao adulto, pois esse indivíduo “está” outro (Ibíd., 2012). À diferença etária somam-se alteridades sociais, culturais, linguísticas e políticas, entre o grupo ou categoria dentro da qual essa criança se insere e àquela do realizador.

Assim, para levar a cabo a realização de um documentário, o cineasta precisa articular todas essas questões, e argumentaremos, nesta comunicação, uma possível superposição da alteridade etária sobre todas as outras, dada a peculiaridade das características da relação adulto x criança no documentário. Concentrar-nos-emos na adoção de procedimentos específicos por documentários voltados à representação de crianças e adolescentes, como a observação e a interferência verbal (seja por locução, interlocução ou texto escrito) que “traduz” a expressão das crianças registradas. Para além das questões meramente formais, interessa-nos ressaltar a ética envolvida nos métodos de trabalho escolhidos por cineastas para guiarem a realização de documentários sobre crianças.

Percebemos, destarte, um referencial “instintivo” presente nas representações desses sujeitos. A existência de determinações e delimitações legais e morais bastante claras envolvendo a infância, nas sociedades ocidentais contemporâneas, não fornece, por si só, diretrizes para a realização documental, tal como parece fazê-lo no jornalismo, por exemplo. Assim, há a adoção constante de procedimentos conhecidos na Antropologia Visual e na tradição do cinema etnográfico que gostaríamos de apontar e debater.

Ressaltamos algumas referências que guiarão a análise. A primeira centra-se na obra de Margaret Mead e Gregory Bateson acerca da Antropologia Visual, além da produção de filmes sobre a infância em diferentes culturas. Voltar-nos-emos também para as experiências de Arnold Gesell no uso das imagens em movimento como ferramenta dos estudos em Psicologia sobre o desenvolvimento de bebês. Desses autores, interessa-nos sobremaneira observar procedimentos como a observação de crianças na interação com adultos, da justaposição de imagens como forma de comparação e da descrição das imagens em voz over.

Também recuperaremos alguns procedimentos do cineasta-antropólogo Jean Rouch, sobretudo acerca da inserção do cineasta entre os indivíduos representados, bem como considerações de Claudine de France (1998) sobre inserção, profilmia e a possibilidade do desenvolvimento de uma etnografia compartilhada.

A partir de tais referências, analisaremos procedimentos presentes em documentários como Bebês (Babies, Thomas Balmes, 2010), Promessas de um Novo Mundo (Promises, BZ Goldberg, Justine Shapiro, 2001) e Teenage Diaries (Tony Steyger, BBC, 1992). Nossa intenção, ao final, não será um diagnóstico ou uma tipologia de procedimentos formais, mas uma reflexão acerca das escolhas e influências que incidem sobre cineastas que escolhem se voltar para um sujeito tão peculiar.
Bibliografia

BATESON, G.; MEAD, M. Balinese character, a photographic analysis. New York: The New York Acadmiy of Sciences, 1942.

FRANCE, C. de . Cinema e antropologia. Campinas : Editora da Unicamp Papirus, 1998.

LEROI-GOURHAN, A. Cinema et sciences humaines. Le film ethnographique existe-t-il ? Revue de géographie humaine et d'ethnologie. 3, pp. 42-51, 1948.

MEAD, M. The primitive child. In C. Murchison (ed) A Handbook of Child Psychology. Worcester, Mass: Clark University, 1931.

NICOLI, L. O. A expressão da criança no documentário Promessas de um Novo Mundo: estudo de caso. Campinas: UNICAMP, 2012. Dissertação (Mestrado em Multimeios) – Programa de Pós-graduação em Multimeios – Instituto de Artes.

ROSENFELD, J. M. Filmar uma reconversão do olhar. In FRANCE, C. de (org.) Do filme etnográfico à antropologia fílmica. Campinas: Editora da Unicamp, 2000, pp. 43-53.