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  Título
CARACTERÍSTICAS DO CINEMA MUMBLECORE NA SÉRIE GIRLS
Autor
Bárbara Fernandes Vieira de Souza
Resumo Expandido
O presente trabalho tem como objetivo observar as características do cinema mumblecore na série televisiva Girls (HBO, 2012-2017), a partir das escolhas estilísticas da produtora-executiva, roteirista-chefe e diretora Lena Dunham. O mumblecore integra uma linha de cinema independente americano, de baixo orçamento, produzida a partir de meados dos anos 2000. Utilizado pela primeira vez em 2005, o termo foi cunhado por um técnico de som para se referir às falas dos personagens que, interpretados por atores não-profissionais, eram difíceis de gravar devido à entonação baixa – por isso o verbo “mumble”, que em português significa “murmurar”.

Produzidas, dirigidas, atuadas e roteirizadas em sua maioria por jovens, universitários ou recém-graduados, as obras associadas ao mumblecore se caracterizam pelo uso de atores não-profissionais, cenas improvisadas, baixo orçamento para a produção e enredos que se baseiam em relacionamentos de jovens adultos. Segundo Johnston (2016), ainda que o termo esteja atribuído ao som, há uma gama de características não-sonoras que configuram o mumblecore, como uma estética naturalista e sem um acabamento visual, contrastando com a estética de filmes de grande orçamento. O mumblecore se impõe como uma escolha estilística que vai contra a perfeição hollywoodiana clássica: além de assumir suas deficiências de realização, tais obras muitas vezes as provocam, dando ênfase ao caráter naturalista das produções. Ainda de acordo com a autora, o rótulo está relacionado não apenas a um estilo, mas também como parte de uma categoria econômica e parte um discurso de práticas. Para Ribeiro (2014), a principal abordagem temática do mumblecore diz respeito a uma geração perdida e inexpressiva. Há um apreço pelo cotidiano, por conversas e reflexões sem conclusões; as produções abordam principalmente relações entre jovens, suas impossibilidades, constrangimentos e como eles consideram qualquer afeto uma dificuldade.

Tais dinâmicas estão no centro da série Girls, objeto de análise deste trabalho. Produzida, dirigida, roteirizada e protagonizada por Lena Dunham, a série explora o trabalho e as relações afetivas, sexuais e amorosas das quatro personagens centrais – Hanna, Marnie, Shoshanna e Jessa - enquanto elas buscam compreender o que significa estar na vida adulta e as implicações de suas novas responsabilidades e de suas escolhas em face aos dilemas. Longe de um retrato idealizado da juventude em Nova York, a série se constrói mais a partir dos erros do que dos acertos de suas personagens, cujos comportamentos, por vezes destrutivos e de auto-sabotagem, evidenciam uma atitude ainda longe da maturidade almejada. Dunham tem uma trajetória de realização de webséries e longas-metragens que se aproximam do estilo mumblecore e teve destaque no cinema com a obra Tiny Furniture (2010), que lhe rendeu o prêmio Independent Spirit na categoria Melhor Primeiro Roteiro.

Esse trabalho se propõe a observar a expressão de elementos narrativos e estéticos que aproximam a série Girls das práticas que caracterizam o cinema mumblecore, a trajetória da autora Lena Dunham, e as escolhas que ela realiza para a obra - levando em consideração o tensionamento entre a estética de baixo orçamento do mumblecore e um certo padrão de qualidade mantido pela HBO enquanto canal a cabo premium consagrado no mercado.

Este estudo visa discutir o movimento mumblecore, com o aporte teórico de Johnston (2016), Ribeiro (2014) e Franceschet (2011); para pensar estilo, usarei como base a obra de Bordwell (2008, 2013) e de Bordwell e Thompson (2013); e para pensar contexto de produção e tomada de posição de Lena Dunham, utilizarei a abordagem da sociologia da cultura de Bourdieu (2002).
Bibliografia

BORDWELL, David. Figuras Traçadas na Luz: A Encenação no Cinema. Campinas: Papirus, 2008.



_____. Sobre a História do Estilo Cinematográfico. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.



BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A Arte do Cinema: Uma Introdução. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.



BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.



FRANCESCHET, Célio (org). Mumblecore: A Estética do Faça Você Mesmo. São Paulo: CCSP, 2011.



JOHNSTON, Nessa. Teorizando o Som “Ruim”: O que Põe o Mumble no Mumblecore?. Revista Brasileira de Estudos do Cinema e Audiovisual, vol. 5, n. 1. Rebeca 9, p. 419-450, jan-jun, 2016.



RIBEIRO, Leonardo Felipe Vieira. O Corpo no Cinema Mumblecore. Revista do Colóquio de Arte e Pesquisa da PPGA-UFES, ano 4, vol. 4, n. 7, p. 240-252, dez, 2014.