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  Título
Memória,escrita pessoal e performance no documentário Por parte de pai
Autor
maria guiomar pessoa ramos
Resumo Expandido
Esta pesquisa nasceu da vontade de um pensamento e sistemática em relação aos procedimentos auto-reflexivos utilizados na realização do documentário Por parte de pai recém-dirigido por mim em 2017. Trata-se de uma tentativa de fazer um balanço sobre esta experiência cinematográfica. O filme narra a trajetória do exilado político português,Vítor Ramos, meu pai.Foi jornalista, ensaísta, crítico e professor de literatura da USP nos anos 1960/70, e, um ardoroso militante político no Brasil e em Portugal.Em 1974, seu aniversário coincidiu com a Revolução dos Cravos portuguesa, precisamente no dia 25 de abril.Dias depois, havia uma festa em minha casa, e ele desmaiou falando ao telefone com o professor Antônio Candido de Melo e Souza; faleceu algumas horas mais tarde, aos 54 anos,de aneurisma cerebral, em meio aos preparativos para sua volta à Portugal,depois de mais de 20 anos de exílio no Brasil,exatamente no período que começaria a usufruir da vitória sobre o salazarismo, após uma longa luta. Sua morte carrega um aspecto dramático que pode ser considerado por um viés universal, ao representar a luta das esquerdas e a situação de exílio, mas também possui um aspecto subjetivo: o da experiência de uma adolescente de 15 anos que perde seu pai de forma abrupta.Ao fazer este filme me deparo com a questão: para representar esse momento e trajetória, como trabalhar com o material biográfico e autobiográfico encontrado?O filme é sobre a busca dessa figura paterna que eu desconhecia, onde a minha trajetória se confunde muitas vezes com a dele: o biográfico e o autobiográfico se mesclam e também se opõe criando um conflito na percepção.Esse resgate vai se dar através de um retrato de família onde a questão subjetiva trazida pela primeira pessoa, pela memória familiar, é naturalmente colocada através de uma proposta coletiva e política.A presença do material biográfico é aproveitada através das duas grandes famílias de Vítor: a família que ele constitui ao vir para o Brasil para casar com minha mãe e a do Portugal Democrático, nome do jornal anti-salazarista fundado por ele logo depois do casamento.Proponho uma tentativa de reflexão sobre esses aspectos do âmbito coletivo e do pessoal que se transformam em interseções fílmicas:como elas aparecem representadas em meu filme. Para trabalhar a maneira como esta experiência se dá em relação a determinadas correntes do documentário contemporâneo brasileiro, que também se utilizam da narrativa em 1a pessoa, atentando para um ponto de vista mais particular e pessoal, aponto para duas produções: Diário de uma busca, 2012, de Flávia Castro, que aposta na presença da própria diretora, ela vai atrás de informações sobre a morte de seu pai, o militante Celso Afonso Castro e Os dias com ele, 2013, de Maria Clara Escobar, onde a cineasta faz um filme também com o pai,Carlos Henrique Escobar, intelectual auto-exilado em Portugal,com quem teve uma relação distante.Nos dois documentários temos como objeto de interesse, o foco em um familiar muito próximo, no caso o pai, através de um olhar bastante subjetivo.Em Por parte de pai existem duas vozes na 1a pessoa,elas se misturam entre os espaços biográficos e autobiográficos, através dos meus comentários sobre as sensações do passado, através da voz de meu pai advinda das cartas e também de sua voz gravada por ele mesmo em fita-cassete em 1970; esses registros muitas vezes se assemelham a cadernos de escrita pessoal. Além das vozes representativas da primeira pessoa, existe uma conversa que se instala em camadas e texturas provindas de outros tipos de registros e documentos, como a fala de minha mãe captada há 15 anos atrás e os depoimentos construídos especificamente para o filme. Como refletir sobre o aspecto performático desse eu-narrador que extrapola a necessária exposição de um corpo em cena para narrar a história? Como lidar com a ética da fidelidade ou da originalidade desses documentos dentro do processo de criação de uma memória tão íntima e pessoal?
Bibliografia

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