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  Título
Em benefício do cinema, a nostalgia. O caso do Movimento Cine Vaz Lobo
Autor
Talitha Gomes Ferraz
Resumo Expandido
Em vista da realização da Copa do Mundo da Fifa de 2014 e dos Jogos Olímpicos Rio 2016, a cidade do Rio de Janeiro passou por intensas transformações. Durante pelo menos os quatro anos que antecederam tais eventos esportivos, ocorreram reconfigurações urbanas e processos de remoção que atingiram, principalmente, a população residente em localidades pauperizadas, situadas nas zonas norte e oeste da cidade. Algumas dessas regiões, como o bairro suburbano de Vaz Lobo, foram à época consideradas por instâncias governamentais áreas estratégicas para a construção da TransCarioca, um sistema de transporte público que segue o modelo Bus Rapid Transit (BRT). Para a construção das vias expressas do BRT, muitas casas, prédios e equipamentos coletivos deveriam simplesmente sair do caminho, ou seja, precisariam ser derrubados para a consecução de uma (re)ordenação do solo urbano segundo interesses da produção capitalista do espaço, em vista das necessidades dos eventos supracitados. Nos planos de demolição, estava incluído o Cine Vaz Lobo, cinema de rua inaugurado em 1941 e encerrado em 1982. A estrutura predial do equipamento de exibição, que também engloba um conjunto de apartamentos no sobrado, a despeito do desuso para a atividade cinematográfica, nunca havia sido ameaçada de modo tão efetivo. Há de se notar que mesmo sem funcionar já há décadas, a imagem do Cine Vaz Lobo como um marco referencial do bairro homônimo mantinha-se, em algum grau, não apenas por conta de seu valor como construção arquitetônica, mas, fundamentalmente, por causa de sua notável função como catalisador de memórias da ida ao cinema, ponto de reconhecimento identitário, celeiro do lazer cinematográfico e da construção de uma veia cinéfila em Vaz Lobo. Foi inclusive por meio deste apreço à cinefilia que a demolição do equipamento pode ser evitada quando uma mobilização de moradores e antigos frequentadores do cinema conseguiu pressionar o governo municipal com o intuito de modificar o desenho original dos trilhos do BRT, preservando a estrutura do Cine Vaz Lobo intacta. Nascia, assim, em 2010, o Movimento Cine Vaz Lobo, que não segue apenas com o propósito de preservar o prédio art déco, mas de reabri-lo como cinema e centro cultural. Até hoje, o grupo luta pelo reconhecimento do espaço como patrimônio cultural, num processo ativo que envolve a participação da comunidade de ativistas (moradores da região, cinéfilos, arquitetos, historiadores, cineclubistas etc), a sensibilização de setores governamentais e os interesses privados dos donos do prédio do antigo cinema. Diante disso, o trabalho se debruça sobre o caso da mobilização da sociedade civil em prol da salvaguarda do Cine Vaz Lobo, tendo como eixo central a análise dos modos com que as produções de memória e discursos sobre as experiências de ida ao cinema por parte de antigos frequentadores impactam hoje a luta pela sua reativação. Associada à noção de que os cinemas desempenham intensa participação na produção da “memória dos lugares urbanos” (JODELET, 2010) e são “espaços de importância social e cultural”, cuja história operacional e institucional articula-se à experiência de audiências (MALTBY, 2011, p. 12), interesso-me especificamente pela observação de como as expressões de memórias ligadas tanto aos consumos cinematográficos de outrora quanto às perdas de cinemas de rua escapam do viés paralisador da lamentação saudosista, empenhando-se na criação de alternativas em benefício da sobrevida dos cinemas, dotando-se, assim, do que venho chamando de “nostalgia ativa” (FERRAZ, 2016). Como parte de uma pesquisa de inspiração etnográfica sobre nostalgia e mobilizações das audiências, conduzida entre 2016 e 2017 na ESPM, são investigadas as relações entre o Cine Vaz Lobo, os ativistas/ entusiastas, as formas de ativação estratégica da nostalgia, os enquadramentos da memória (POLLAK, 1989) e os reconhecimentos identitários que têm transcorrido desde 2010 em meio a uma intrincada rede de relações de poder.
Bibliografia

FERRAZ, Talitha. Actvating nostalgia: cinemagoers’ performances in Brazilian movie theatres reopening and protection cases. Medien&Zeit, vol. 31, n.4, 2016, pp. 72-82. Arbeitskreis für historische Kommunikationsforschung (AHK), Viena, Áustria. Disponível em: http://medienundzeit.at/wp-content/uploads/2017/02/MZ-2016-4-online-ed.pdf . Acesso em: 28 março 2017.

JODELET, Denise. La memoria de los lugares urbanos. Alteridades, vol. 20, n. 39, jan-jun, 2010, pp. 81-89. Universidad Autónoma Metropolitana – Iztapalapa, Distrito Federal, México. Disponível em: http://www.redalyc.org/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=74720828007 . Acesso em: 7 de abril 2017.

MALTBY, Richard. New Cinema Histories. In: MALTBY, Richard; BILTEREYST, Daniël; MEERS, Philippe. Explorations in New Cinema History: approaches and case studies. Oxford: Blackwell Publishing, 2011.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.2, n.3, p.3-15, 1989.