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  Título
A experiência do coletivo feminista Mulheres no Audiovisual PE – MAPE
Autor
Yanara Cavalcanti Galvão
Resumo Expandido
O cinema feito em Pernambuco - mais precisamente em Recife -, ganhou notoriedade nacional e internacional a partir do século XXI. As articulações internas e colaborativas entre realizadores, movidas pelas afinidades, laços afetivos e lutas políticas originaram grupos de produção com recorrência no cinema em Pernambuco desde a década de 1920. “A experiência de cooperação mútua entre cineastas desencadeou uma maneira de realizar filmes que exploram, de maneira explícita, todo o potencial e referências de um universo local compartilhado” (NOGUEIRA, 2014). Será neste contexto de uma cultura cinematográfica em que as articulações colaborativas entre realizadores foram de grande relevância para a qualidade e projeção das produções realizadas no Estado, que também irão surgir os grupos que se constituem enquanto coletivos . Um cinema de militância que irá ganhar destaque para além do cenário local com produções audiovisuais, a partir de acontecimentos contemporâneos com suas propostas estéticas diretamente relacionadas à política da sua época. Neste cenário que surge o coletivo feminista de cinema, Mulheres do Audiovisual PE – MAPE.



O MAPE foi criado às vésperas da tomada de poder, de forma reconhecida enquanto antidemocrática, do governo da Presidenta Dilma Roussef (maio, 2016) e foi formado exclusivamente por mulheres profissionais e estudantes do cinema e audiovisual em Pernambuco, a sua maioria situada na região metropolitana do Recife. O coletivo volta-se para a produção audiovisual com conteúdos que pautam as lutas feministas contemporâneas com uma preocupação para além de lutar contra a mídia hegemônica e os avanços do conservadorismo na política produzindo a “contrainformação”, dar visibilidade às diversas vozes femininas, incluindo mulheres periféricas, negras, jovens, idosas, lésbicas e afeminadas. Na criação do MAPE também é lançada a carta manifesto intitulada como Frente Mulheres no Audiovisual de Pernambuco, afirmando o posicionamento de luta das mulheres envolvidas: “porque entendemos a força dessa linguagem e, mais do que isso, entendemos que essa luta também é nossa, como profissionais do audiovisual”. Neste contexto são produzidos os primeiros 06 filmes, classificados pelo MAPE como “vídeos de urgência”. Todos realizados coletivamente com suas propostas quanto narrativa e linguagem, apesar de diferenciadas entre elas, todas voltadas para a pauta feminista que atende as lutas políticas contemporâneas.



No presente trabalho buscamos analisar um dos filmes realizados pelo MAPE, “Corpos Políticos” (2016), cuja proposta estética e narrativa estão associadas diretamente à ambiência política em que é produzido todos os demais filmes do coletivo. Tomamos como base para esta análise, a relação entre estética e política, desenvolvida pelo filósofo Jaques Ranciére. Na sua concepção da partilha do sensível enquanto comum partilhado. Desta relação da arte – aqui o audiovisual – com a política que não é a “luta pelo poder”, e que se constitui enquanto “partilha de uma esfera particular de experiência, de objetos colocados como comuns e originários de uma decisão comum, de sujeitos reconhecidos como capazes de designar esses objetos e argumentar a respeito deles” (RANCIÉRE, 2010). Neste mesmo contexto situamos o trabalho colaborativo do coletivo Mulheres no Audiovisual de Pernambuco para além de uma tendência das realizações cinematográficas do Estado, uma prática contemporânea comum às mulheres que assumem a direção de filmes no Brasil desde a “retomada” do cinema brasileiro no final da década de 1990 (NAGIB, 2012).
Bibliografia

NAGIB, Lúcia. Além da diferença: a mulher no Cinema da Retomada. DEVIRES-Cinema e Humanidades,

v. 9, n. 1, p. 14-29, 2016.



NOGUEIRA, Amanda Mansur Custódio. A brodagem no cinema em Pernambuco.

Tese de Doutorado em Comunicação (UFPE), Recife, 2014.



PAIM, Claudia. Práticas coletivas de artistas na américa latina contemporânea, 2005.

Disponível em: http://lanic.utexas.edu/project/etext/llilas/ilassa/2007/paim.pdf



RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.

________________ A estética como política. In: Devires, Belo Horizonte, V. 7, N. 2, p. 14-36, jul-dez 2010.