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  Título
A memória da cidade na websérie "Cinema de Rua em Juiz de Fora"
Autor
Valéria Fabri Carneiro Marques
Resumo Expandido
INTRODUÇÃO

Os cinemas de rua funcionaram na modernidade como importantes geradores de laços sociais e como articuladores de sociabilidades diversas. Nas cidades em que esta atividade floresceu, como foi o caso de Juiz de Fora (cidade da Zona da Mata mineira), os cinemas influenciaram de forma muito intensa os processos de criação de identidades locais. O estudo deste fenômeno pode, assim, auxiliar a compreender as produções de memórias mobilizadas pelas salas de cinema.

No intuito de recuperar um pouco da rica memória audiovisual juizforana o grupo de pesquisa Comunicação, Cidade e Memória da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) tem produzido a websérie Cinemas de Rua em Juiz de Fora. Esta série de pequenos episódios audiovisuais para web trabalha com relatos pessoas que vivenciaram não só o período áureo da atividade exibidora na cidade em tentativa de reconstruir os trajetos imaginários dos frequentadores desses cinemas e as formas de sociabilidades construídas em torno da exibição audiovisual.

DESENVOLVIMENTO

A memória é mais do que o simples ato de recordar, seus conceitos "Revelam os fundamentos da existência, fazendo com que a experiência existencial, através da narrativa, integre-se ao cotidiano fornecendo-lhe significado e evitando, dessa forma, que a humanidade perca raízes, lastros e identidades" (DELGADO, 2004, p.17).

Assim a memória se difere da história pois está mais ligada à ficção, a uma reconstrução que confere importância a algo que passou, atualizando-o. O esforço por rememorar passa pela criação de narrativas na tentativa de significar o passado "A memória é sempre transitória, notoriamente não confiável e passível de esquecimento; em suma ela é humana e social" (HUYSSEN, 2000, p.37).

Partindo dessa concepção a websérie "Cinemas de Rua em Juiz de Fora" busca ressignificar a memória juizforana ligada ao audiovisual atualizando-a. A relação de Juiz de Fora com a atividade cinematográfica se estabelece desde os primórdios da sétima arte no Brasil, do cinema dos primeiros tempos . Na cidade teria ocorrido a primeira exibição fílmica do Estado de Minas Gerais no dia 23 de julho de 1897. Dentro do período de recorte desta pesquisa, anos 1950 a 2015, foi verificada a existência de cerca de 18 cinemas de rua.

É necessário fazer aqui uma distinção entre os cinemas localizados em prédios comerciais, shoppings centers em sua maioria, locais que Marc Augé (1994) define como não-lugares , e os chamados cinemas localizados em vias públicas, os quais podem-se compreender como espaços de encontro e de sociabilidade (FERRAZ, 2008). Esses cinemas estabelecem uma relação direta com o espaço em que estão inseridos, são lugares de afeto ou "afecção" (DELEUZE, 2002).

A partir deste panorama foi a concebida a websérie estudada. A produção da série foi dividida em 3 grandes capítulos: Cinemas da rua Halfeld, outros cinemas do centro e cinemas de bairro. Cada episódio tem como tema central um dos cinemas de rua da cidade. A estrutura central de cada episódio é guiada por um limite de tempo, em geral de 3 a 6 minutos. Atualmente cinco episódios foram produzidos e estão disponíveis no YouTube. O conteúdo é disponível para todo o público e aberto para debates e interação dos espectadores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através desta pesquisa foi possível perceber como os cinemas de rua estiveram presentes na cidade de Juiz de Fora e constituíram muito do imaginário urbano da cidade. A websérie ao recontar as histórias dos frequentadores e trabalhadores desses espaços possibilitou a atualização da memória ligada à atividade exibidora na cidade. Isso pode ser percebido através do acompanhamento das interações dos conteúdos relativos a websérie, onde foi possível observar como a memória desses cinemas desperta um desejo de participação em muitos usuários da rede, em alguns comentários os espectadores chegam a repensar a valorização e o lugar da cultura.
Bibliografia

AUGÉ, Marc. Não-lugares - Introdução a uma antropologia da sobremodernidade. Trad. Maria Lúcia Pereira. 3. ed. Campinas, São Paulo: Papirus, 1994.



DELEUZE, Gilles. Espinosa: Filosofia prática. Tradução: Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. São Paulo: Escuta, 2002.



DELGADO, Lucília de Almeida Neves. História oral e narrativa: tempo, memória e identidades. História Oral, nº6, 2003.



FERRAZ, Thalita. Cinema de rua e construções de memórias no espaço urbano da Praça Saens Peña. In: Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho, 6., 2008, Rio de Janeiro. Anais... Disponível em: .



HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória – arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.



CINEMA DE RUA EM JUIZ DE FORA. Comcime, 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/channel/UC11mhvrELqyFny1xyC4ysVQ