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  Título
O tempo do transe no roteiro de Glauber Rocha
Autor
Nayla Mendes Ramalho
Resumo Expandido
O gesto de escritura do roteiro rascunho de Terra em Transe de 1965 de Glauber Rocha traz o rastro do tempo. Esse gesto é como em Agamben, algo que não se desprende de uma ética. Mas que ética é a ética do gesto? Ela é delineada no tempo do corpo, que é rememorante e pensante. Como se o corpo fosse, através do gesto, instante de encontro de inúmeras linhas de força e de ação. A ética é considerada aqui não tanto como escolha, mas como necessidade da diferença.

Na filosofia de Spinoza podemos encontrar os meios de pensar um cinema que trate de intensidades individuais, diferentes, sem perder de vista que todas fazem parte de um Uno, que não é identidade, mas totalidade. Nela tudo compõe uma infinita sinfonia de singularidades, que somente é perfeita como infinitude diversa. Spinoza faz de sua filosofia um pensamento dos encontros e da necessidade destes para que ocorram as mudanças também necessárias nos indivíduos. Nos encontros é que se pode delinear uma política, na medida que cada indivíduo seja capaz de saber, a partir da própria singularidade a necessidade da diferença do outro.

Nos parece que também nesse sentido Glauber Rocha reivindica com força um cinema que se singularize e que seja a própria política. Notamos tal força em seus escritos críticos. Mas como ela está presente no rascunho do roteiro? A partir dos rastros de escolhas e apagamentos, podemos encontrar o esforço do gesto que dobra o tempo da escrita, buscando construir o tempo do transe. Mas o transe aqui não é apenas uma ambientação temporal da narrativa, é também o modo como o roteiro torce o tempo das expectativas ilimitadas e da acumulação como fim em si mesmo, o tempo do capitalismo. O tempo do roteiro pode aqui se encontrar com o pensamento de Kopenawa sobre o transe chamânico, que fere e enfraquece o corpo, fazendo nascer um outro corpo reinventado. Também com o transe do candomblé, que repete, pelas máscaras, o tempo através dos ritmos do terreiro. Por meio de choques de ritmos e reinvenções, Glauber Rocha também re-trabalha o tempo, molda-o de maneira a ir provocando encontros entre transes singulares, compondo um jogo de elementos de tempo, fraturando a própria narrativa através de silêncios e ausências.

Intentamos neste trabalho, portanto, demonstrar que o roteiro de Glauber Rocha pode ser recurso para pensar em um “comum” no cinema já a partir de sua etapa escrita. Mas este comum não é a uniformidade dos manuais de roteiro. Visitar o rascunho de um outro pode ser instante de encontro e dissolução da forma fixa: uma abertura para o caos. Por sua vez, a partir do caos pode-se formular uma estética única, um método intimamente ligado a uma ética necessária a uma política da diferença.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim: notas sobre a política. Tradução: Davi Pessoa Carneiro. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

ARANTES, Paulo. O novo Tempo do Mundo. São Paulo: Boitempo editorial, 2001.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Tradução: Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

DELEUZE, Gilles. Cursos sobre Spinoza (Vincennes 1978-1981) Trad. Emanuel Angelo da Rocha Fragoso, Francisca Evilene Barbosa de Castro, Hélio Rabello Cardoso Júnior & Jefferson Alves de Aquino – Fortaleza Ed. UECE, 2009.

KOPENAWA, Albert Bruce, Davi. A queda do céu: Palavras de um Chamã Yanomami. Tradução: Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

ROCHA, Glauber. Terra em Transe. 1965. Roteiro.

SPINOZA, Benedictus de. Ética. Tradução: Grupo de estudos Espinosanos: Coordenação Marilena Chauí. São Paulo, Editora Universidade de São Paulo, 2015