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  Título
Spike Lee: a identidade negra na construção de imagens e ideias
Autor
Aida Rodrigues Feitosa
Resumo Expandido
Estudando a obra filmica e os escritos ( entrevistas, comentários, publicações) de Spike Lee, pretendemos comunicar uma teoria do cineasta que revela a centralidade da identidade racial para seu entendimento de mundo e seu fazer cinematográfico. O presente trabalho dialoga com autores como Biette (2000), Deleuze (2013), Ayfre (1969) que buscam o protagonismo dos cineastas no pensar do próprio cinema, e, tem como grande referência Aumont (2015) que analisa a produção intelectual dos cineastas e propõe uma teoria em que próprio cineasta teoriza e pesquisa sobre o fazer fílmico, sua relação com outras artes e com o público, colocando em destaque o papel do artista na criação e na valoração de sua arte.



Spike Lee talvez seja o cineasta afro-americano mais popular da indústria cinematográfica norte-americana e também tem importante destaque no cenário internacional. O cineasta que completou 60 anos de vida em março de 2017, iniciou sua carreira profissional com o longa She got have it (1986) e continua produzindo, já tendo realizado mais de 40 filmes. Além de diretor, produtor e roteirista, Spike Lee, frequentemente, atua em seus próprios filmes. Sua produtora, cujo o nome é “40 acres and a mule” faz referência ao pagamento dado a cada ex-escravo, com o fim do sistema escravocrata nos Estados Unidos, sinalizando o caráter estético e político do seu empreendimento cinematográfico.



Lee, além em colocar pessoas negras na frente das câmeras e contar sua história, também emprega profissionais negros atrás das câmeras e estimula sua contratação. Entre seus principais filmes, destaca-se: School Daze, Faça a coisa certa, Mo´Better Blues, Jungle Fever. Atualmente, está finalizando a adaptação do seu longa She Got Have it pra o formato seriado da plataforma Netflix.



Segundo Munanga (2009, p. 20), a negritude e/ou a identidade negra se referem à história comum que liga, de uma maneira ou de outra, todos os grupos humanos que o olhar do mundo ocidental branco reuniu sob o nome de negros. Para bell hooks (2009, p.26, tradução nossa), os cineastas com identidade negra sofrem muitas cobranças ao realizar seu ofício: “eles são questionados por críticos e por suas audiências para justificar suas escolhas e assumir a responsabilidade política para a qualidade de suas representações”, ainda segundo ela, o mesmo não acontece com os cineastas não-negros: “Ninguém questiona um cineasta branco nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha que faz um filme apenas com personagens brancos, se ele ou ela é um supremacista branco.”



Em livro publicado em 2010 pelo próprio Spike Lee, com fotos de still, entrevista com elenco e equipe do filme,e cópia do rascunho da primeira versão do roteiro de Faça a Coisa Certa, Lee (2010, p. 37, tradução nossa) fala sobre a diferença de percepção causada pelo protagonista Mookie:

" Até hoje, nenhuma pessoa de cor me perguntou porque Mookie jogou a lata pela janela. As únicas pessoas que perguntam são brancos. Isso mostra que as pessoas veem as coisas de forma diferente. Afro-americanos entenderam o que aconteceu e como ele se saiu, tendo acabado de ver seu amigo assassinado."



A publicação “Spike Lee Interviews” (2002) reúne entrevistas com Spike Lee a diversas veículos de comunicação, destacamos uma que foi dada ao jornalista Elvis Mitchell da revista Playboy, em 1991. Spike Lee, descrito pelo jornalista como um artista controverso, afirma tanto que um diretor negro deve filmar a história de Malcom X, assim como Martin Scorsese trouxe algo especial para GoodFellas por ser italiano.



O que podemos observar tanto nos filmes como nos escritos de Spike Lee, é que a identidade racial do criador do filme é determinante para o tipo de cinema que ele vai realizar, uma vez que seu olhar está mediado pelo seu pertencimento. Para Lee, tanto as pessoas negras vêem o mundo, assim com são vistas de maneira particular, o que reflete em um fazer cinematográfico que é marcado de forma identitária e plural.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. Les Théories des Cinéastes. 3 ed. Paris: Armand Colin, 2015.

BIETTE, Jean- Claude. Qu ́est-ce qu ́un cinéaste? Paris: P.O.L Trafic, 2000.

DELEUZE, Gilles. Cinema 2 The Time-Image. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013.

HOOKS, bell. Reel do Real. New York: Routledge Classics, 2009.

LEE, Spike; MATLOFF, Jason. Spike Lee: Do the right thing. Brooklyn: Ammo, 2010.

LEE, Spike. Spike Lee: Interviews. Edited by Cynthia Fuchs. Mississipi, USA: University Press of Mississipi, 2002.

MASSOD, Paula. Black City Cinema: African American Urban Experiences in Film. Philadelphia: Temple University Press, 2003.

McGOWAN, Todd. Spike Lee: contemporary film directors. Illinois: University of Illinois, 2014.

MUNANGA, Kabenguele. Negritude: usos e sentidos. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

STERRITT, David. Spike Lee ́s America. Malden, MA: Polity Press, 2013.