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  Título
A teoria do fascínio cinemático e o corpo de Cronenberg
Autor
Lillian Bento de Souza
Resumo Expandido
Ao assistirmos a um filme estabelece-se uma relação de delírio, sedução e fascínio, uma absorção da imagem que pode gerar sensações de aproximação ou repulsa. Diante dessa afeição, como poderia o analista do cinema se libertar em absoluto dessa subjetividade e pretender uma análise isenta capaz de isolar a imagem e exaltar a palavra? Para contrapor essa ideia, busco na proposta por Steven Shaviro (2015), a “teoria do fascínio cinemático” uma alternativa radical para o paradigma psicanalítico da teoria do cinema.

Shaviro segue na contramão do que propõe Christian Metz (1982), que busca justamente romper o vínculo com o cinema enquanto objeto do imaginário. Para Metz só é possível para o analista trabalhar a partir de uma busca por minimizar os danos causados por suas percepções subjetivas. Segundo avalia, essa subjetividade seria como uma barreira para o avanço do conhecimento científico para o cinema e por isso é preciso afastá-la.

Ao contrário dessa resistência à maneira como o filme afeta o analista, Shaviro (2015) admite as próprias subjetividades para construir um modelo de análise livre do que aqui se busca destruir: a castração, ou seja, o muro que contém o desejo e o buraco negro que o engole, para fazer referência a Deleuze e Guattari (1980).

O desejo de reproduzir e o desejo de manter um distanciamento das excitações voyerísticas diante do filme criam uma tensão, que terminou por levar a teoria do cinema a um medo das imagens. Medo esse que já se configurava como algo constante no pensamento ocidental desde Platão com os alertas para “não sermos seduzidos por reflexos e sombras”.

O que Shaviro (2015) afirma é que a teoria semiótica e psicanalítica do cinema se configuraram como uma “construção fóbica”, que mantém as imagens à distância por medo. Elas ficam isoladas como monstros, como seres abjetos e, tal qual os corpos abjetos criados pelo cineasta canadense David Cronenberg me interessa aqui que essas imagens pulsem e ocupem seu lugar na análise. Tanto quanto quer a proposta de Deleuze e Guattari (1980) que o desejo não seja castrado, quero aqui que a imagem também não o seja.

Shaviro pontua que o temor do pensamento ocidental não é provocado pela falta, o suposto vazio das imagens, ao contrário, é a sua fartura, seu poder. “As imagens tem uma capacidade excessiva de seduzir e enganar, de afetar o espectador sem aviso prévio.” (Shaviro, 2015, p.27) Assim, quando diante das imagens de Cronenberg, do corpo que o cineasta constrói ao longo de sua trajetória fílmica, não estou diante do desejo como falta, mas do excesso. Cronenberg é, essencialmente, excessivo, literal e grotesco de modo que não há ali um desejo contido, o muro ou o buraco negro, o que há é a manifestação literal e material do desejo, um corpo composto por potências que se transformam em novos órgãos sexuais, em substâncias purulentas, em diversas manifestações físicas.

Como recorte para a análise, pretendo aqui olhar para o filme Rabid (1977), em que a protagonista Rose (Marilyn Ghambers) se transforma em uma mulher-mutante após ser submetida a uma experiência genética criada para transformar a pele humana em novos órgãos. No entanto, Rose desenvolve um ferrão fálico na axila esquerda, que sai de um orifício rugoso semelhante a um ânus, mas com formato de vagina. É desde órgão novo e sexual que sai toda a ameaça ao futuro da humanidade. Rose é tomada por um desejo que a transborda e converte-se em uma mulher vampiro que com sua picada fatal transforma as vítimas em zumbis sedentos por sangue e fadados à morte.

É a partir da análise do corpo de Rose, que este trabalho busca experimentar a proposta da teoria do Fascínio Cinemático de Steven Shaviro. Se por um lado a imagem é tão literal quanto o corpo de Rose e confronta o espectador diretamente, por outro, essa literalidade é vazia. Nada há ali senão luzes piscantes, sons e figuras efêmeras. Ainda, assim, a imagem cinematográfica é literal, sem mediações, é plena.
Bibliografia

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