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  Título
Negritudes, corporeidade e educabilidade no filme Aniceto do Império
Autor
Fábio José Paz da Rosa
Resumo Expandido
Quando o curta-metragem Aniceto do Império: em dia de Alforria? foi lançado em 1981, o intuito era relacionar “exemplarmente o que Bulbul e seus companheiros militantes buscavam: ativismo político, história do negro e identidade negra” (CARVALHO, 2006, p. 102).

As escolhas imagéticas feitas por Bulbul nos direciona também a pensar principalmente em processos de formação docente como que os conhecimentos políticos, históricos e identitários da cultura afro-brasileira integram os currículos escolares. Nessa ótica, Luiz Fernandes Oliveira e Vera Maria Ferrão Candau (2010) defendem a superação tanto de padrões epistemológicos hegemônicos no seio da intelectualidade brasileira quanto à afirmação de novos espaços de enunciação epistêmica nos movimentos sociais.

O foco da câmera de Zózimo Bulbul no sambista Aniceto do Império vislumbra um cenário inovador de olhares e aprendizagens sobre as culturas negras. Ao olhar a corporeidade e ouvir o protagonista desse curta-metragem, Bulbul reconstrói por meio de uma epistemologia os saberes constituintes da cultura negra fundamentados na ancestralidade, na política e na religiosidade em que os conhecimentos não se hierarquizam, mas são intrínsecos a constituição dos seres humanos.

O curta-metragem inicia-se com Aniceto subindo por uma pequena ladeira de barro no morro da Serrinha, Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, em passos lentos. Vestido com camisa branca e calça social bege. Nos pés, sandálias brancas.Para um pouco e saúda dois conhecidos: “Salve a Serrinha. Hoje é a Império Serrano!”

A câmera caminha para a direita lentamente mostrando da parte de cima do morro o panorama do bairro de Madureira. Em um primeiro plano, algumas telhas de barro. Casebres cobertas por um matagal. Ouve-se a voz de Aniceto: “É verdade, aqui foi fundado o Império Serrano. O maior grêmio de Madureira que balançou a roseira”

Enquanto a câmera continua lentamente para a direita e apresentando os créditos em letras brancas, em primeiro plano aparecem crianças e adultos da comunidade da Serrinha, parados. Nesse momento, surge o nome do curta: Aniceto do Império em DIA DE ALFORRIA...? O título à frente desses sujeito questiona o espectador a pensar sobre se realmente houve uma liberdade para a população negra.

A câmera sobe um pouco mostrando o espaço com muito mato e caminhando mais à direita e subindo. A câmera passa rapidamente à frente de algumas crianças animadas. Em seguida, o espectador entende que a câmera completará uma volta à direita em 360 graus. Um segundo plano apresenta outro panorama do morro, com um foco em alguns prédios do bairro de Madureira.

A construção estética das primeiras cenas demonstra uma escolha por parte do cineasta em evidenciar os sentimentos de pertencimento do sambista. Em meio à narração dos grandes feitos dos seus antepassados pela construção simbólica daquele território, Aniceto possibilita ao espectador uma reexistência de concepções de imagens que deixam de ser vistos apenas pela pobreza.

As imagens das vielas de terra batida e mato se mesclam à voz que resgata as memórias de Aniceto. Nesse momento, aparece em letras brancas: “filme dedicado à ZUMBI dos Palmares e a todos os quilombolas mortos e vivos”. As relações entre Zumbi dos Palmares e agremiação de Madureira na voz de Aniceto são, na perspectiva de Bulbul, essenciais para se entender que o reconhecimento do passado se faz ainda presente e continua a oprimir e posicionar os negros em condições de luta. A referência à Zumbi não se trata apenas de uma homenagem. No cinema negro de Bulbul, a Serrinha é um quilombo contemporâneo. Isso muda a lógica de concepção de uma escola de samba que é narrada simplesmente por um entretenimento cultural. Na voz do fundador da agremiação verde e branca, o cineasta nos faz pensar que apropriar-se de um espaço, reconhecê-lo e estabelecer discursos com referências e exaltações pode condicionar para a luta de territórios construídos e pensados na perspectiva negra.
Bibliografia

BULBUL, Zózimo [et al]. Zózimo Bulbul: uma alma carioca. Jefferson De (Organização de textos). Rio de Janeiro: Centro Afro Carioca de Cinema: Fundação Palmares, 2014.



CARVALHO, Noel dos Santos. 2005. Cinema e representação social: O cinema negro de Zózimo Bulbul. Tese (Doutorado em Sociologia). FFLCH-USP. São Paulo.



CANDAU, Vera; OLIVEIRA, Luís Fernandes de. Pedagogia decolonial e Educação antirracista e intercultural no Brasil. Educação em Revista, Belo Horizonte, vol. 26, n. 01, p.15-40, jan.-abr. 2010. ISSN 0102-4698.



HANCHARD, Michael. 2001. Orfeu e o poder: o Movimento Negro no Rio de Janeiro e São Paulo (1945-1988). Rio de Janeiro: EdUERJ.



RANCIÉRE, Jacques. 2005. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Exo experimental Editora.