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  Título
Slow Cinema em defesa do tempo e duração na experiência espectatorial
Autor
Pablo Gea
Resumo Expandido
Na bibliografia crítica e teórica, o termo Slow Cinema surge recentemente, inicialmente como cinema of slowness através do crítico de cinema francês Michel Ciment em 2003. Apenas em 2010, no entanto, que o termo Slow Cinema ganha popularidade na literatura Anglo-Saxã, através de artigos e editoriais da revista Sight and Sound (DE LUCA, JORGE, 2016)). A partir daí, o termo ganha espaço também no meio acadêmico, passando a ser tema teses de doutorado, como a de Matthew Flanagan (2012), e livros como Slow Movies (2014), de Ira Jaffe, ou Slow Cinema (2016), primeiro livro a organizar um conjunto de artigos sobre o tema, organizado por Tiago de Luca e Nuno Barradas Jorge (2016), entre outros. Devido a essa bibliografia ainda em formação, a novidade do tema torna necessário uma breve contextualização a seu respeito.

O termo, apesar da tradução literal - Cinema Lento - trazer enorme leque de interpretações, pois a caracterização de lento pode ser vista como relativa, afinal, um filme pode ser visto como lento para determinado espectador, e não para outro. Um cinema visto como lento estaria então sempre presente na história do cinema. No entanto, o termo, reconhecido por muitos teóricos como não necessariamente adequado, possui uma delimitação histórica relativamente precisa. Ao buscar a bibliografia sobre o termo, temos que um Slow Cinema refere-se ao um conjunto de filmes contemporâneos, de cineastas de nacionalidades diversas, que apresentam características de estilo muito similares, principalmente no uso hiperbólico da forma fílmica do plano sequência. Os usos do plano sequência em tais filmes, bem como as mise en scènes construídas de maneira simplista, onde caso tenham personagens, muitas vezes acompanhamos seu dia a dia, em tarefas banais, seja comendo, caminhando ou dormindo, por exemplo. Tais narrativas dispersas, que fogem de modos dramáticos e relações de causa e efeito claras, colocam tais filmes em um regime de quase absoluta contemplação da imagem cinematográfica, uma exercício de visualidade minuciosa, que aliada às longas durações permitem esse tipo de inspeção. Retirando de tal corpus fílmico o elemento das longas durações, tentamos dialogar com um outro tipo de bibliografia, que trata dos efeitos que a sala de cinema possui no espectador. Com a diluição da imagem em movimento, o filme passa a não ser matéria exclusiva das salas de cinema. Os novos dispositvos reprodutores de imagem em movimento permitem, entre outras ações, pausar o filme, interrompendo seu fluxo imagético. Ao garantirmos ser na duração, no ato de inspeção prolongada do desenrolar do plano, a quase essência dos filmes do Slow Cinema, afinal, é a duração o elemento cinematográfico mais pulsante, tentamos estabelecer como tais filmes parecem depender da instalação da sala de cinema, do isolamento visual e sonoro e da não capacidade de se interromper o fluxo imagético, em suma, do que Mauerhofer (1991) coloca como situação cinema.
Bibliografia

DE LUCA, T.; JORGE, N. B. (Org). Slow Cinema. 1ª Edição. Inglaterra. Edinburgh University, 2015.

MELLO, C. (Org). Realismo Fantasmagórico. São Paulo: Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária - USP, 2015.

MAUERHOFER, H. A Psicologia da Experiência Cinematográfica. In: XAVIER, I. (Ed.). . A Experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilme, 1991. p. 375–380.

OLIVEIRA JR, L. C. A Mise en scène no cinema: Do clássico ao cinema de fluxo. Campinas: Papirus, 2013.

AUMONT, J. Limites de La Fiction: Considerátions actuelles sur l’état du cinéma. [s.l.] Bayard, 2014.

DE LUCA, T.; JORGE, N. B. (Org). Slow Cinema. 1ª Edição. Inglaterra. Edinburgh University, 2015. 320 p. (Traditions in World Cinema Europe.)

FLANAGAN, M. Slow Cinema: Temporality and Style in Contemporary Art and Experimental Film. 2012. 228 f. Tese. University of Exeter, 2012.

JAFFE, I. Slow Movies: Countering the Cinema of Action. Estados Unidos. Wallflower Press, 2014. 256 p.