Voltar para a lista
 
  Título
Dançando no Escuro: panóptico e biopolítica no musical
Autor
Nicholas Andueza Sineiro
Resumo Expandido
O artigo se concentra em duas sequências musicais específicas do longa-metragem "Dançando no Escuro" (2000), de Lars von Trier, com o intuito de analisar de que modo as imagens rompem formalmente com o gênero musical e, no mesmo gesto de ruptura, colocam esse gênero no centro do debate, junto com o próprio cinema. A primeira das sequências é "Cvalda", em que a protagonista, Selma, canta na fábrica para que sua amiga, Kathy, dance e sorria. Em seguida, observa-se o número "I’ve seen it all", cantada por Selma quando Jef, um homem tímido que a ama, descobre que ela está cega.



Em ambos os momentos (inclusive em todas as cenas cantadas, exceto na música final), Lars von Trier optou por uma forma específica de filmar: ele colocou um grande número de câmeras escondidas pelo cenário (em alguns casos, por volta de cem câmeras (WOHL)) e filmou as coreografias com todas ao mesmo tempo. Essa decisão resultou em uma natureza de imagem (fixa, distante, de ângulos abertos) que difere do que se vê nesse filme quando não há dança ou música (câmera na mão e próxima, intimista), e que se opõe mais ainda a elementos visuais que marcam o gênero musical, elementos que servem para realçar a coreografia e o canto (câmeras móveis que acompanham a dança, enquadramentos centralizados nos personagens, montagem invisível – todos elementos vistos nos filmes de Busby Berkeley, por exemplo, grande nome dos musicais que é explicitamente citado em "Dançando no escuro").



Os enquadramentos fixos e abertos usados em algumas dessas várias câmeras por vezes assumem ângulos em plongée, assemelhando-se a câmeras de vigilância – algo particularmente sensível no número "Cvalda". Tais ângulos, somados a enquadramentos que soam como “desenquadros” (ao não acompanharem a coreografia e, muitas vezes, trazerem para o primeiro plano objetos “banais” que “atrapalham” a visão do número), deixam claro que cada plano é parte de um todo multi-olhos, um efeito potencializado pela montagem, que se faz ativa e visível nas sequências. Assim, o dispositivo de filmagem estabelecido por von Trier, esse sistema de câmeras, dialoga com a lógica do panóptico, tal como abordado por Michel Foucault, e traz um tom de estranhamento aos números musicais de "Dançando no escuro". A presença gritante e acachapante do aparato fílmico (desenquadros, ângulos gerais e fixos, montagem presente) suscita questões sobre a relação entre a câmera e o corpo.



Tom Gunning aponta que uma biopolítica esteve relacionada à imagem fotográfica ou cinematográfica desde as suas origens, na medida em que eram usadas para registros policiais, formando galerias visuais dos corpos de criminosos. O estranhamento produzido pela forma de "Dançando no escuro" faz ecoar essa relação histórica, implicando-a no próprio gênero musical a partir da relação da protagonista com esse gênero de filme. Na sequência "I've seen it all", que traz um trem alegórico (como referência ao início do cinema) o cinema como um todo é implicado. A soberania do Estado americano, que decide pela execução de Selma, está implicada já na própria imagem do filme.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: sovereign power and bare life. California, EUA: Stanford University Press, 1998.



__________________. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.



FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 41ª ed. Petrópoles, RJ: Vozes, 2013.



__________________. História da sexualidade I: a vontade de saber. 23ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2013.



WOHL, Victoria. Blind spots and double vision: national and individual fantasy in Dancer in the dark. In: HONIG, Bonnie; MARSO, Lori J. (ed.). Politics, Theory, and Film: Critical Encounters with Lars Von Trier. Oxford: Oxford Press University, 2016.



GUNNING, Tom. O retrato do corpo humano: a fotografia, os detetives e os primórdios do cinema. In: CHARNEY, Leo e SCHWARTZ, Vanessa R. (orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2004.