Voltar para a lista
 
  Título
A mise en scène da morte na era da proliferação das imagens.
Autor
Milton do Prado Franco Neto
Resumo Expandido
No final de 2016, o embaixador russo na Turquia era filmado na abertura de uma exposição de arte. A câmera o enquadra em close, falando calmamente, quando fomos surpreendidos pelo som de tiros e pela queda do seu corpo, que deixa no enquadramento três elementos: duas fotos expostas na galeria, desfocadas mostrando uma pessoa deixando flores em um túmulo e um canhão de guerra. Entre elas, em foco, o microfone.



Não bastasse a rica encenação desse registro, após os tiros câmera ainda “abre” o enquadramento para mostrar o resto da exposição, o atirador à esquerda e o corpo do embaixador que jaz à direita. Para além do registro “jornalístico” do ato de reenquadrar a ação, há sinais de uma necessidade estética: a câmera treme, mas logo é controlada; um primeiro plano geral é obtido, logo depois é corrigido. Há claramente a procura de um melhor quadro para extrair a força daquele personagem que irrompe em fúria verbal após ter atirado.



Na era de proliferação e abundância de imagens em movimento, é possível pensarmos estética e eticamente a encenação filmada da morte?



Ao contrário do sexo explícito, banalizado pela abundância e absorvido pelo cinema autoral, a morte filmada coloca um outro tipo de problema: ela não pode ser moralmente aceita como ato passível de ser filmado e usufruído esteticamente pelo espectador. Mesmo dentro dos limites da ficção o como filmar impõe, para além de uma questão estética, uma questão ética. Ou, como bem defendeu Jacques Rivette e, a partir dele, Serge Daney, a estética que nasce da ética.



No célebre texto crítico De L’Abjetcion, Rivette ataca fortemente o filme Kapo, de Gillo Pontecorvo, em especial o uso do travelling para reenquadrar o corpo morto do personagem de Emanuelle Riva após o suicídio, “tomando cuidado de inscrever exatamente a mão suspensa em um ângulo de seu enquadramento final”. Ainda que retome esse texto para pensar o importante impacto da força crítica dos tempos iniciais da Cahiers do Cinéma, Serge Daney em “Le Travelling de Kapo” expande o questionamento à representação geral da morte e da violência, defendendo Nuit et Bruillard, de Alain Resnais, como exemplo de não-imagem, de “impossibilidade de contar” um evento brutal como o Holocausto.



Esses dois textos-chave do pensamento crítico voltaram à tona graças à defesa feita por Didi-Huberman do filme O Filho de Saul em Sortir du Noir e, mais recente e especificamente, a resposta a ele dada por Alain Fleischer em Retour au Noir. Para além da importante problematização em torno dos limites da representação do holocausto, Fleischer argumenta que o ataque de Rivette ao filme Kapo parte de uma constatação falsa: o tal movimento de câmera nunca teria sido um travelling. Essa nova polêmica, se ela mesma falsa ou verdadeira, é antes de tudo a atualização de uma questão fundamental e que deve ser no mínimo repensada em função do novo regime de imagens a que estamos submetidos hoje: como filmar a morte em um mundo povoado de imagens de morte. Como repensar a ética da imagem já que, para retomar outra máxima de Rivette, já não somos – definitivamente – inocentes?



Na circulação de imagens atual temos um outro grau de proliferação de assassinatos filmados e não falamos aqui somente da deep web, onde ações criminosas existem em uma internet pouco vigiada. No youtube podem ser acessados tranquilamente filmagens de execuções de gangues de criminosos. O assassinato midiatizado pelo vídeo na internet parece ter sido definitivamente liberado depois de que imagens de Sadam Hussein foi filmado por um celular e essas imagens se espalharam rapidamente pelo mundo.



A cena do “jovem turco” matando o embaixador russo parece exigir uma nova atitude. Para além das questões morais que parecem não inibir a produção e difusão dessas imagens e independente do seu uso sensacionalista pela imprensa, ela chama por outras posturas analíticas que nos ajudem a indicar uma nova postura estética – e, por consequência, o estabelecimento de uma nova ética.
Bibliografia

DANEY, Serge. Le Travelling de Kapo.

DELEUZE, Gilles. L’Image-temps. Paris : Ed. Minuit, 1985.

DESCHAMPS, Hélène. Jacques Rivette: théâtre, amour, cinema. Paris: L'Harmattan, 2001.

DIDI-HUBERMAN. Sortir du Noir. Éditions de minuit. Paris, 2015

FLEISCHER, Alain. Retour au noir. Éditions Leo Scheer. Paris: 2016

RIVETTE, Jacques. De L’Abjection