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  Título
A beleza que petrifica e a imagem como devir: de Kafka a Sokurov.
Autor
Marcelo Monteiro Costa
Resumo Expandido
Uma imagem capaz de evocar o divino e o demoníaco, a graça e o infortúnio, a serenidade e a incerteza, e que portanto encarna imagisticamente a beleza inquietante. Isso nos leva à uma incursão na dimensão do imaginário a partir do cinema de Aleksandr Sokurov, um autor de filmografia peculiar e incomum, de difícil ancoragem e catalogação, justamente por tornar movediço o normalmente sólido e consistente terreno da representação. Ao propor uma quebra, sem qualquer aviso prévio, com o simbólico, o cinema de Sokurov nos lança num planeta que gravita com leis próprias, imprevisíveis e desconhecidas, ainda que se valha de referenciais clássicos e modernos (no sentido das artes plásticas, sobretudo a pintura) na sua composição visual.

Esse apelo e gosto visual pela imagem, inclusive, coloca o cinema de sokúrov num campo de oposição à ideia de um cinema filosófico construído sob a renúncia das imagens. O objetivo aqui é restabelecer e repensar, portanto, a relação do cinema com as imagens, dentro de uma fenomenologia que redimensiona o papel do imaginário e do devaneio poético como devir psíquico, expansão da consciência e energia criadora. Refutando assim uma tendência iconoclasta que vê as imagens como fonte do erro e do ilusório, do que não é verdadeiro. Ou ainda como a simples manifestação de um arquiteto calculista e ilusionista, tal o Apolo de Nietzsche, que despotencializa a experiência sensível. Ao lançar mão do devaneio poético como fonte inspiradora de imagens visuais e sonoras, também admitimos a potência num processo em que a participação consciente se faz necessária; desfazendo assim uma visão excludente em que potência e inconsciente desfrutavam de uma relação condicional e inextricável.

Outro traço marcante na filmografia de Sokurov é a capacidade em construir atmosferas, presenças, sensações e afetos de difícil classificação. É nesse sentido, que vislumbramos semelhanças com a obra de Kafka, um escritor que (e)videncia imagens inspiradoras de beleza e horror, e é capaz de nos lançar em atmosferas aterradoras, também com leis gravitacionais próprias; reforçando assim a ideia do devir enquanto forma, ou como propõe Deleuze, uma literatura menor. Um método através do qual uma potência imaginativa, ou uma imagem poética, destemida e irascível, impõe-se à participação consciente e apolínea na busca por uma forma capaz de preservar sua potência. É nesse sentido que a ideia de uma beleza gorgônea, identificada por Günther Anders em sua análise sobre Kafka, parece relevante; uma beleza que provoca fascínio, mas quando encarada nos olhos, petrifica.
Bibliografia

ANDERS, Günther. Kafka: pró e contra - os autos do processo. 2ª. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. 3ª Ed. - São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. - (Biblioteca do pensamento moderno)

BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

DURAND, Gilbert. L’Imaginaire. Essai sur les sciences et la philosophie de l’image. Paris: Hatier, 1994. Tradução: José Carlos de Paula Carvalho.

FURTADO, Beatriz. A Imagem-intensidade no cinema de Sokurov in Cinema Deleuze. PARENTE, Andre (org.). Campinas, SP: Papirus, 2013. - (Coleção Campo Imagético)

IAMPOLSKI, Mikhail. Famílias truncadas e intimidade absoluta in Alexander Sokurov: poeta visual. SAVINO, Fábio; FRANÇA, Pedro (orgs.). Rio de Janeiro: Banco do Brasil, Ministério da Cultura, 2013.

MACHADO, Álvaro (org.). Aleksandr Sokúrov. São Paulo. Cosac e naify, 2002.