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  Título
NARRATIVAS DA PAISAGEM URBANA NO SEGMENTO DONA FULANA / RIO, EU TE AMO
Autor
Maria Helena Braga e Vaz da Costa
Resumo Expandido
Paisagem é a maneira como vemos e damos sentido ao mundo. Cosgrove (1998, p.98), diz que “A paisagem, de fato, ‘é uma maneira de ver’, uma maneira de compor e harmonizar o mundo externo em uma ‘cena’, em uma unidade visual.” Ao elaborarmos uma imagem do mundo, estamos expressando através dela nossa maneira de concebê-lo e nossa maneira de praticá-lo, isto é, a maneira como percebemos a paisagem é em si mesma expressão da nossa cultura. A paisagem é, portanto, entendida como um texto cultural (DUNCAN, 2004). Como texto cultural, a paisagem carrega múltiplos significados simbólicos, os quais podem ser encontrados frequentemente em produtos culturais como os filmes.

Rio, Eu Te Amo é uma produção coletiva que reúne onze diretores de sete diferentes nacionalidades. O primeiro segmento do filme, intitulado Dona Fulana, é dirigido por Andrucha Waddington e acompanha as primeiras horas da manhã de um dia na vida da moradora de rua conhecida por Dona Fulana (Fernanda Montenegro) e seu reencontro com o neto Leandro (Eduardo Sterblitch). A história se passa no Centro do Rio, local urbano, comercial, muito movimentado durante o dia. Tem ainda como locação a Floresta da Tijuca, onde Dona Fulana costuma ir tomar banho de cachoeira. Ambas as locações são bastante constitutivas da cidade do Rio de Janeiro.

Observamos que o discurso fílmico em Dona Fulana reforça a ideia de que a cidade do Rio de Janeiro é acumuladora de tempos, histórias e humanidades que torna possível simultaneamente experiências infinitas, únicas e diversas. Nesse segmento, deparamo-nos com um Rio de Janeiro de torcedores que vestem a camisa do time; uma cidade com pedintes que dão um “jeitinho” para faturar mais; lugar onde a relação da população com a polícia esbarra em conflitos; lugar de pessoas preconceituosas, mas também de gente afetuosa e bem-humorada; cidade onde logo cedo já tem gente na rua, trabalhando ou a caminho do trabalho; cidade onde a imprensa constantemente se apropria das notícias sobre violência urbana para veicular nos jornais.

Dona Fulana vivencia a cidade, convive com as pessoas, compreende as dinâmicas do espaço e sente prazer em vagar pelas paisagens da cidade. Apesar de trazer como personagem principal uma moradora de rua, aqui não se faz da condição dessa personagem uma causa social através da qual se deva lutar contra ou a partir da qual a sociedade deva se mobilizar em prol de mudança. Não há uma demonização da vida na rua do Rio de Janeiro, e sim uma romantização produzida acerca do morador de rua o associando a uma certa leveza para com as dificuldades cotidianas da cidade.

No entanto, o lugar construído por Dona Fulana não corresponde à ideia de Cidade Maravilhosa associada à capital fluminense. Sobre isso, Prysthon (2007) explica que a representação das cidades midiáticas não obedece a uma narrativa única e que os diversificados produtos da mídia tendem a focar em aspectos diferentes das cidades. No caso da cidade do Rio de Janeiro, as representações audiovisuais são frequentemente centradas ora em beleza, ora em violência, destacando-se o caráter “naturalizado” da cidade.

Em Rio, Eu Te Amo (2014), tipos humanos e ambientes se destacam. A câmera está na rua, nas praças, jardins, na praia, nas pessoas, nos monumentos. Aqui lidarmos com uma cidade fotografada diretamente das suas locações, o que impacta na forma como a história é contada e a cidade é construída. É possível perceber na cidade filmada a sua contraparte “real”, sobretudo pelo amplo uso de imagens-símbolos, sonoridades, discursos e diálogos que remetem ao Rio de Janeiro. Rio, Eu Te Amo (re)produz espaço, cultura, práticas sociais e nos oferece um texto (visual e verbal) que oferece informações sobre espaços com os quais estamos familiarizados, espaços urbanos dados na realidade e na imaginação. Filmes, portanto, possibilitam explorar espaços do passado para melhor antecipar os espaços do futuro e também possibilitam o entendimento dos espaços do presente (KEILLER, 2014).
Bibliografia

COSGROVE, D. E. (1998) A Geografia está em toda parte: cultura e simbolismo nas paisagens humanas. In: CORRÊA, R. L.; ROSENDAHL, Z. (orgs). Paisagem, Tempo e Cultura. Rio de Janeiro: EdUERJ, 124 p. p. 92-123.

DUNCAN, J. (2004) A Paisagem como sistema de criação de signos. In: CORRÊA, Roberto L.; ROSENDAHL, Zeny. (orgs). Paisagens, Textos e Identidade. Rio de Janeiro: EdUERJ, p. 91-132.

KEILLER, P. The View From the Tain: cities and other landscapes. Londres: Verso, 2014.

PRYSTHON, A. Cidades visíveis: fragmentos da vida urbana brasileira em cinema e TV contemporâneos. Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v.4, n.10, p.11-22, jul. 2007.