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  Título
“Um lugar silencioso” e o som como protagonista
Autor
Rodrigo Octávio D Azevedo Carreiro
Resumo Expandido
Um número significativo de pesquisadores (JAY, 1993; ROSE, 2007; CRARY, 2012) tem afirmado, nas últimas décadas, que a sociedade ocidental tem se tornado, desde o Iluminismo e a revolução industrial do século XVIII, cada vez mais oculocêntrica. Essencialmente, isso quer dizer que o ser humano usa a visão, mais do que os outros quatro sentidos, para perceber, sentir e compreender o mundo ao seu redor. Uma nova disciplina acadêmica – a cultura visual – consolidou-se, nos anos 1980, graças à percepção convergente de acadêmicos oriundos de múltiplas áreas de que a informação vem sendo transmitida mais pelas imagens do que por textos escritos ou sonoros (STAFFORD, 1991; JENKS, 1995; MIRZOEFF, 1999).



No cinema, o oculocentrismo parece enraizado no senso comum, que costuma valorizar (muito) mais a banda imagética do que sua contraparte sonora. Há algumas décadas, teóricos importantes dos estudos do som cinematográfico têm depreendido esforços para invalidar essas premissas. Num rumoroso e clássico ensaio, Rick Altman (1992) elencou quatro falácias (e meia) para demonstrar que o som responde tanto quanto a visão pela experiência audiovisual proporcionada pelos filmes. Michel Chion (1994) cunhou um conceito baseado na psicoacústica – a audiovisão – para afirmar que, no cinema, imagem e som não transportam fluxos paralelos de informação ao espectador, mas influenciam um ao outro dinâmica e incessantemente, construindo um fluxo narrativo único, de modo que não faria sentido falar dos dois separadamente.



De todo modo, a visão continua recebendo mais atenção de espectadores e realizadores. Quando nos dirigimos a uma sala de exibição, afirmamos que vamos “ver” um filme, sem qualquer menção ao sentido da audição. As locações dos filmes de ficção, de modo geral, costumam ser selecionadas principalmente por suas qualidades visuais, muitas vezes desprezando-se características acústicas desfavoráveis (THOM, 1999). Pense, ainda, na enorme quantidade de filmes em que personagens esquadrinham imagens para descobrir alguma informação importante (de “Blow up” a “Blade Runner”), ao mesmo tempo em que raramente o som recebe o mesmo nível de atenção.



Nessas raras ocasiões em que o áudio ganha destaque narrativo dentro do enredo, o trabalho da equipe de som costuma se tornar referência para pesquisadores dos estudos do som cinematográfico. Por exemplo, em “A Conversação” (1974), um detetive (Gene Hackman) edita as gravações de um diálogo para desvendar o plano de um assassinato. Em “Um Tiro na Noite” (1981), gravações feitas por um técnico de efeitos sonoros podem provar que um importante político foi vítima de assassinato. Ambos são filmes cuja banda sonora se destaca pela criatividade no uso do som.



O thriller de horror distópico “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, John Krasinski, 2018) está alinhado aos exemplos anteriores: o som é protagonista do enredo. No filme, monstros canibais dizimaram a população do planeta, apesar de serem cegos. Eles se guiam pelo ouvido, matando todas as criaturas vivas que produzam som. Para sobreviver, os poucos humanos restantes precisam produzir o mínimo possível de ruídos, falando na linguagem de sinais e andando descalços. Há apenas 90 linhas de diálogos.



Nesta comunicação, apresentaremos uma análise da banda sonora do filme, destacando o uso do silêncio como elemento dramático central para o fluxo narrativo – o silêncio constitui o efeito sonoro mais expressivo do filme. Como fio condutor da análise, utilizaremos conceitos de ponto de escuta e som fora de quadro (CHION, 1994) e continuidade intensificada (SMITH, 2013), a fim de lançar luz nos artifícios sonoros de que o longa-metragem lança mão para fazer o espectador experimentar o filme, em sua quase totalidade, através da modalidade de escuta reduzida (CHION, 1994), que põe o público na rara condição de ter que prestar máxima atenção à banda sonora para que possa seguir a narrativa.
Bibliografia

ALTMAN, Rick (org.). Sound theory, sound practice. London: Routledge, 1992.



CRARY, Jonathan. Técnicas do observador. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.



JAY, Martin. Downcast Eyes. Berkeley: California University Press, 1993.



JENKS, Chris (org.) Visual Culture. London: Routledge, 1995.



MIRZOEFF, Nicholas (org.) The Visual Culture Reader. London: Routledge, 1998.



ROSE, Gillian. Visual methodologies. London: Sage Publications, 2001.



SMITH, Jeff. “The Sound of Intensified Continuity”. In: The Oxford Handbook of New Audiovisual Aesthetics (orgs. John Richardson, Claudia Gorbman e Carol Vernallis). New York: Oxford University Press, p. 331-356, 2013.



STAFFORD, Barbara Maria. Body Criticism. London: MIT Press, 1991.



THOM, Randy. "Designing a movie for sound". Iris Magazine, Iowa, n. 27, 1999, p. 9-20.