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  Título
Darwin nos palcos: entre cômicos, telepatas, fantoches e Pixinguinha
Autor
Sancler Ebert
Resumo Expandido
Entre os anos de 1914 e 1933, Darwin, o imitador do belo sexo, foi atração de mais de uma dezena de cineteatros do Rio de Janeiro. O artista fazia sucesso interpretando cantoras estrangeiras, imitando os trejeitos femininos e apresentando figurinos de luxo. Nesta comunicação iremos analisar as programações nas quais o artista estava inserido, buscando mapear quais eram as outras atrações de palco programadas junto ao transformista. Dessa forma, buscamos compreender como trabalho de Darwin poderia ser entendido naquela época.

Usamos como referências trabalhos vinculados ao New Cinema History (MALTBY, BILTEREYST, MEERS. 2011), que têm pensado questões do cinema para além dos filmes, como a pesquisa de Talitha Ferraz “A segunda Cinelândia carioca: cinemas, sociabilidade e memória na Tijuca” e “Prólogos envenenados: Cinema e teatro nos palcos da Cinelândia Carioca” de Luciana Corrêa de Araújo, entre outros.

Numa primeira análise, podemos perceber que Darwin compartilhava os palcos com diferentes tipos de atrações, de cantores a artistas excêntricos. Como observa Araújo (2009), “As apresentações ao vivo variavam, incluindo peças teatrais, números de dança e uma ampla variedade de atrações, muitas delas com evidente origem nos espetáculos circenses e de feiras populares” (2009, p. 01).

Em sua primeira apresentação, Darwin é elencado como atração do Palace Theatre e performa junto a artistas de diferentes nacionalidades como as Hermanas Fernandes, bailarinas espanholas; Vivian Nett, cançonetista francesa e The Sisters Kaufman, artistas americanas, entre outros (Correio da Manhã, 08/08/1914, p. 8). Dois meses depois, Darwin ressurge no Republica para se apresentar conjuntamente com a revista A toque de Caixa (Correio da Manhã, 26/10/1914, p. 04).

Interessante observar que, quando retorna ao Rio de Janeiro em 1922, ano com maior número de espetáculos registrados em solo carioca (só no Correio da Manhã são 112 notas e publicidades), Darwin apresenta-se como única atração de palco na maior parte dos cineteatros. Vale destacar que o artista performa na maioria dos casos em cineteatros de bairros, como o Cine Theatro Brasil, localizado na Tijuca. São poucas as noites em que Darwin divide o palco naquele ano, como em 25 de julho, quando Rosita Portugueza, cantora de fados se apresenta logo após ele no Cine Theatro Brasil numa primeira sessão e Duarte, cômico parodista e Stella Germana, imitadora do gaúcho argentino, assumem uma segunda sessão (Correio da Manhã, p. 4).

No ano seguinte, o transformista se enfileira ao lado de outras atrações no palco do Rialto. Em 23 e 25 de agosto se apresentam junto a Darwin artistas como Frosso, o homem-boneco; Os batutas, grupo de sertanejos e Pixinguinha, divulgado pelos “seus admiráveis solos de flauta”. (Correio da Manhã, p. 6). Em 02 de setembro, o palco é dividido com Carlito e Lili, vendidos como reis dos patins (Ibid., p. 8) e em 14 de setembro, com artistas como Raca, ilusionista e adepto da hipnose e Rogínsky, o homem do estômago de avestruz. Na mesma data, Darwin se apresenta na matiné infantil junto de Ferraz, cômico caipira; dos fantoches do teatro de bonecos e da bailarina Gabriela Goszilkow (Ibid, p. 14).

Em 25 de junho de 1924, Darwin é listado como uma das dez atrações do Programa South American Tour no Cinema Central. Junto ao transformista são anunciados artistas como os malabaristas Hanvarr e Lee; os modeladores de argila em cores Yost and Clady; os acrobatas William Brothers; os duetitas cômicos Los Caiafas; a mezza soprano Luzia Castaldi e tenor lírico Franscisconi, entre outros (Correio da Manhã, p. 14). De 04 a 20 de agosto, divide o palco do Cinema Atlantico com Yara Jordão, com quem trabalhou no filme de Luiz de Barros, “Augusto Annibal quer casar” de 1923 (Ibidem, p. 14). Nas últimas apresentações anunciadas de Darwin, o artista divide o espaço do Theatro Casino com Prof. Boschi, divulgado como “O mestre do Fakirismo – Telepathia” (Correio da Manhã, 19/12/1933, p. 16).
Bibliografia

ARAÚJO, Luciana Corrêa de. “Prólogos envenenados”: Cinema e teatro nos palcos da Cinelândia Carioca. Travessias – Arte e Comunicação. v. 3, n. 2 (2009).

ARAÚJO, Vicente de Paula. A bela época do cinema brasileiro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976.

CORREIO DA MANHÃ. Disponível em http://hemerotecadigital.bn.br/correio-da-

-manh%C3%A3/089842

FERRAZ, Talitha. A segunda Cinelândia carioca: cinemas, sociabilidade e memória na Tijuca. Rio de Janeiro: Multifoco.

GAZETA DE NOTÍCIAS. Disponível em http://hemerotecadigital.bn.br/gazeta-de-

-noticias/103730

GONZAGA, Alice. Palácios e poeiras: 100 anos de cinemas no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Record: FUNARTE, 1996.

MALTBY, R., BILTEREYST, D., MEERS, P. Explorations in new cinema history: approaches and case studies. Oxford: Wiley-Blackwell, 2011.